''O meu cartão é branco, o da paz'', diz Sarney

Um dia após protesto de Suplicy, presidente do Senado tenta dar clima de normalidade à Casa

Eugênia Lopes e Christiane Samarco, O Estadao de S.Paulo

27 de agosto de 2009 | 00h00

"O meu cartão é o cartão branco, o cartão da paz." Com esta frase e no comando de uma pauta burocrática, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), tentou imprimir ontem um clima de normalidade à sessão ordinária da Casa e pôr fim à crise que há mais de dois meses toma conta dos discursos dos senadores em plenário. No dia seguinte ao gesto teatral do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que empunhou um cartão vermelho na tribuna para defender a renúncia de Sarney, as votações se restringiram à aprovação de nomeações de autoridades.Presidente nacional do PSDB, o senador Sérgio Guerra (PE) deixou claro que a oposição está disposta a dar uma trégua a Sarney. Na sessão deliberativa de ontem à tarde, o tucano cobrou do presidente do Senado declarações feitas na semana passada, ocasião em que culpou a oposição, em particular o PSDB, pela crise na Casa. "O PSDB jamais conspirou contra o mandato de vossa excelência. Considero injusta e equivocada a afirmação de que o PSDB está na origem dessa crise", reclamou Guerra. "O PSDB não teve nenhuma responsabilidade na origem dessa crise. Se naquela hora fui induzido pelo repórter a dizer isso, eu peço desculpas", respondeu Sarney, encerrando a polêmica.Desde que foi absolvido pelo Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, que arquivou 11 ações contra ele há oito dias, Sarney pôde respirar tranquilo ontem pela primeira vez ao presidir uma sessão, sem ouvir pedidos para que se afaste do cargo. Durante a sessão foram votadas as indicações de dois embaixadores, um diretor da Agência Nacional de Águas e de um integrante do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade)."Votar uma pauta burocrática não é sinal de que tudo voltou ao normal", afirmou o senador Garibaldi Alves (PMDB-RN). Ex-presidente do Senado, Garibaldi disse que a Casa só voltará à normalidade quando forem votadas matérias polêmicas e complexas. "Mas isso fica difícil de acontecer nesses momentos porque implica em negociações, nas quais o árbitro é o presidente da Casa", observou."Acho que temos de nos concentrar no trabalho. O espetáculo deve cessar. Tivemos muitas manifestações heterodoxas de todos os lados. Está na hora de acabar o recreio e começar o trabalho sério", afirmou o líder do governo no Senado, Romero Jucá (RR). Segundo ele, Sarney deverá ler, na próxima semana, o texto da Medida Provisória 462, que garante o repasse de R$ 1 bilhão para o Fundo de Participação dos Municípios. A MP foi aprovada na Câmara antes do recesso parlamentar, mas até hoje não teve sua tramitação iniciada no Senado.O líder do PSB, senador Antonio Carlos Valadares (SE), subiu ontem à tribuna para criticar os líderes aliados e cobrar sua presença no plenário. "Se as coisas não estão andando, a culpa não é da oposição. A oposição está no seu papel ao obstruir as votações", disse. "Quem não está aqui é o governo. Apenas eu estou aqui. Sou vice-líder do governo e líder do PSB, mas estou querendo que meus companheiros estejam aqui comigo", acrescentou Valadares, que cobrou a presença de Ideli Salvatti, líder do governo no Congresso, e de Aloizio Mercadante (SP), líder do PT, além de Jucá.Há dois dias, os senadores de oposição se recusaram a participar de reunião com Sarney para definir a pauta de votações. Prometeram também obstruir as sessões. O líder do DEM, senador José Agripino Maia (RN), argumentou que o partido está "desconfortável" e não quer votar nenhum projeto polêmico. Desde que voltaram do recesso parlamentar, no início de agosto, os senadores votaram apenas nomeações para cargos e ratificação de acordos de cooperação econômica internacional.

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