O mesmo enredo para dois governos

FHC, em 1999, e Dilma, em 2015, têm problemas parecidos, mas com partidos em posições oposta

Carlos Eduardo Entini, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2015 | 03h00

Manifestações, baixa popularidade, crise econômica, dólar em alta, escândalos, ameaça de impeachment, acusação de golpismo e de estelionato eleitoral, pedidos para que se respeite a democracia e as instituições. Esse enredo, que marcou o início do segundo mandato presidencial do tucano Fernando Henrique Cardoso, em 1999, se repete, agora, com a presidente petista Dilma Rousseff.

Desde a posse da petista, em janeiro deste ano, os mesmos problemas enfrentados por FHC estão no radar de Dilma – agora, porém, com os partidos de ambos em posições investidas.

Foi durante o segundo mandato que tanto FHC quanto Dilma superaram as taxas de rejeição e de reprovação do ex-presidente Fernando Collor. Em agosto de 1999, a rejeição a FHC chegou a 59%, segundo pesquisa do Vox Populi. No momento do impeachment, Collor era rejeitado por 57% da população. Também no mês de agosto, 16 anos depois, o governo Dilma, segundo o Datafolha, era reprovado por 71% dos brasileiros, ante 68% da gestão Collor também durante o impeachment.

Apesar das realidades econômicas serem bem distintas, os dois enfraquecidos inícios de segundos mandatos foram marcados por indicadores socioeconômicos preocupantes – a saída, tanto da administração tucana quanto da petista, foi o anúncio de um “ajuste fiscal” para tentar organizar e dar novo rumo à economia do País.

Manifestações. Assim como hoje, as ruas também mandaram recados em 1999. O maior ato contra o governo FHC na época foi a Marcha dos 100 mil, realizada em agosto daquele ano, em Brasília, promovido por movimentos sociais. No dia seguinte ao ato, Fernando Henrique Cardoso considerou o protesto bom para a democracia e afirmou que o recado havia sido “registrado” pelo governo.

Dilma, alvo de três grandes mobilizações desde que iniciou seu segundo governo, também evocou a “democracia” logo depois do protesto de 15 de março, que, segundo a Polícia Militar, levou 1 milhão de pessoas à Avenida Paulista em São Paulo. “Valeu a pena lutar pela democracia”, afirmou a presidente. 

Se Dilma tem hoje o escândalo na Petrobrás aguçando a crise política, FHC tinha os grampos do BNDES alimentando a sua. Em 1999, na esteira do caso do BNDES, o PT protocolou pedidos de impeachment alegando crime de responsabilidade. Então presidente da Câmara, o atual vice-presidente, Michel Temer, os rejeitou. “Não há nenhuma fundamentação ou razão concreta para um processo de impeachment”, justificou Temer em julho de 1999.

Hoje, parte do PSDB, principal partido de oposição, estuda a viabilidade de um pedido de impeachment de Dilma com base nas “pedaladas fiscais”, manobras que a presidente teria usado para melhorar as contas do governo em 2014. O atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já rejeitou a ideia, mas hoje, rompido com o Palácio do Planalto, admite analisar todos os pedidos de impedimento que chegarem ao Congresso Nacional.

Legitimidade. Em 1999, como agora, houve acusações de “golpismo” quando se falava na saída do presidente do cargo. Encarando as ameaças de impeachment, tal qual Dilma, Fernando Henrique lembrava a legitimidade do cargo que ocupava. “Respeitem os resultados das urnas onde o povo escolheu quem vai dirigir o País”, disse ele em agosto de 1999. Há três semanas, Dilma usou o mesmo argumento ao ser questionada sobre eventual pedido de afastamento: “O voto é a fonte da minha legitimidade, e ninguém vai tirar essa legitimidade que o voto me deu”. 

As “coincidências” não param por aí. Se após as manifestações anti-Dilma ocorridas no domingo passado FHC sugeriu à petista a renúncia como um “gesto de grandeza”, Lula, candidato a presidente derrotado em 1998 pelo tucano, declarou, no ano seguinte: “Renúncia é um gesto de grandeza e FHC não tem essa grandeza”. 

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