O medo e a coragem de Dilma

BRASÍLIA - Foi preciso o dólar passar dos R$ 4 para a presidente Dilma Rousseff agir com rapidez. Arriscar uma mudança brusca de estratégia na apreciação dos vetos pelo Congresso mostrou a coragem que tanto a campanha reeleitoral propagandeou, mas que vinha faltando ao governo neste segundo mandato.

Adriano Ceolin, O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2015 | 10h54

Momentos de coragem surgem quando mais se tem medo. Ainda que não existam subsídios concretos para o impeachment, uma destruição meteórica da economia acaba com qualquer chance de sustentação mínima da presidente. Seria o fim da linha para Dilma.

A presidente parece que se deu conta e resolveu parar de hesitar. Melhor que isso. Resolveu ousar e pediu que seus líderes no Congresso realizassem uma estratégia de votação no momento em que a base aliada passa por uma reconstrução, a partir de uma ampla reforma ministerial que se desenlaça.

Nesse aspecto, a realidade também se impôs. Dilma resolveu fazer quatro coisas que sempre evitou desde que chegou à cadeira de presidente: cortar pastas criadas por Lula, diminuir espaço do PT, privilegiar ministros técnicos a políticos e aumentar o tamanho do PMDB, dono das maiores bancadas no Congresso.

Entregar o Ministério da Saúde a um peemedebista é o maior símbolo do choque de realidade. Em 2011, quando subiu a rampa do Palácio do Planalto pela primeira vez, Dilma tirou o partido da pasta e colocou Alexandre Padilha (PT) no lugar. O petista foi ainda mais longe e demitiu peemedebistas de cargos de segundo escalão.

Naquela oportunidade, não faltaram reclamações, mas quem ousaria bater de frente com a primeira mulher presidente eleita com mais de 55 milhões de votos? Dilma era “a rainha”, como definiu seu marqueteiro João Santana. Uma rainha que não pensava duas vezes em demitir “ministros envolvidos em malfeitos”.

Agora, nesses primeiros dez meses deste segundo mandato, tudo que Dilma quer é não se transformar numa rainha da Inglaterra, sem poder, à mercê das vontades de seus súditos. No entanto, sabe que a cada dia terá de ceder mais. Sem demora. Só assim evita a guilhotina do impeachment.

Tudo o que sabemos sobre:
análiseDilma Rousseffvetos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.