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O mea-culpa de Bolsonaro

Pode ser que o presidente esteja perplexo com o trabalho que terá

João Domingos, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2019 | 03h00

Na conversa que teve com jornalistas ontem, durante café da manhã, o presidente Jair Bolsonaro informou que trocará o comando da Secretaria de Comunicação do governo na próxima segunda-feira. Sai o publicitário Floriano Amorim, entra o empresário Fábio Wajngarten. Das várias missões de Wajngarten, uma será trabalhar para melhorar a imagem do presidente e de seu governo. 

Incomodou muito a pesquisa do Ibope divulgada no dia 20 do mês passado, quando foi feita a comparação entre a avaliação de Bolsonaro com a do mês de março do primeiro ano de mandato dos três últimos presidentes. Na sondagem, 34% avaliaram a gestão de Bolsonaro como ótima ou boa. Em março de 1995, Fernando Henrique Cardoso obteve índice de 41%; Lula de 51% em março de 2003; e Dilma Rousseff, de 56% em março de 2011. A avaliação ruim ou péssima no mesmo período também foi desfavorável a Bolsonaro em comparação com os três eleitos anteriormente. Ele chegou a 24%. Fernando Henrique obteve 12%, Lula, 7% e Dilma, 5%.

Com a entrada de Wajngarten na Secretaria de Comunicação a ideia é uma mudança radical na estratégia de comunicação do governo. Deverá haver mais investimentos em campanhas publicitárias pela TV na defesa da reforma da Previdência e de outros projetos, quando eles forem anunciados. E aproximação do governo com os meios de comunicação tradicionais. Um cavalo de pau até mesmo na forma de Bolsonaro encarar a mídia tradicional, uma de suas adversárias preferidas. (Na troca de mensagens pelo WhatsApp com Gustavo Bebianno, que acabaram vazadas, Bolsonaro chegou a vetar encontro do então ministro com um representante da Rede Globo, tida pelo presidente como inimiga desde a campanha presidencial).

O que terá provocado o desgaste rápido da imagem de Bolsonaro? Não pode ser a reforma da Previdência, que, embora impopular, só começou a tramitar para valer mesmo agora, com a escolha do relator da proposta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara.

Como a campanha eleitoral foi muito agressiva, e Bolsonaro prometeu fazer mudanças muito rapidamente, é possível que o eleitor esperasse resultados práticos já nos primeiros 60 dias do governo. Elas, no entanto, não vieram. Nesse período sobraram também confusões, idas e vindas e declarações controversas que agradaram a bolsonaristas convertidos, mas não o grosso dos que votaram nele, e que o fizeram por ter conseguido passar a imagem de ser o anti-PT e o anti-Lula.

Pode ser que o presidente esteja perplexo com o tamanho do trabalho que terá pela frente. Ele mesmo já disse que o que o conforta é que o cargo de presidente é passageiro, “imagina passar o tempo todo com esse abacaxi?”

Dá para perceber, nesses agora quase 100 dias de governo, que Bolsonaro tem seus assuntos prediletos na Presidência da República: flexibilizar a posse de armas, aumentar o tempo de validade da carteira de habilitação de cinco para dez anos, dar um jeito nos radares que medem a alta velocidade nas estradas, suspender o horário de verão. Ao que parece, assuntos mais profundos, como as negociações com os partidos, a reforma da Previdência, Bolsonaro só os abraça com grande sacrifício.

Fica ainda a impressão de que ele gostaria de seguir sua vida como um cidadão comum, que vai ao cinema com a mulher, que faz churrasco para convidados, que recebe amigos em casa, e de chinelos. Quem sabe foi por isso que, durante cerimônia no Palácio do Planalto, ontem, Bolsonaro fez um pedido de desculpas pelas caneladas? E acrescentou: “Não nasci para ser presidente, nasci para ser militar”. Ninguém nasceu para ser presidente. Mas, chegando lá, é preciso aprender a sê-lo com cada abacaxi que se descasca.

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