Dida Sampaio|Estadão
Dida Sampaio|Estadão

Dilma assegura que tem votos para barrar impeachment

Dilma classificou como “uma suposição que não é correta” a notícia divulgada de que o vice-presidente Michel Temer já estaria se movimentando para fazer composições para a sucessão da petista

Tânia Monteiro e Carla Araújo, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2016 | 11h17

Brasília - No momento em que o PMDB prepara o desembarque do governo, assim como outros partidos da base aliada e o Palácio do Planalto contabiliza voto a voto para segurar o impeachment, a presidente Dilma Rousseff assegurou, em entrevista, que tem os votos necessários para barrar a tentativa de afastá-la do cargo. “A gente tem que esperar o processo acontecer. Mas eu tenho convicção de que teremos votos necessários (para impedir o impeachment)”, declarou a presidente, que precisa ter 172 votos para barrar o processo.

Dilma classificou como “uma suposição que não é correta” a notícia divulgada de que o vice-presidente Michel Temer, já estaria se movimentando para fazer composições para a sucessão da petista. “Tem avaliações que não são só precipitadas, como não são corretas”, afirmou ela, acrescentando que tem “muita certeza de que os nossos ministros (do PMDB) estão comprometidos com sua permanência no governo”. E apelou: “nós queremos muito que o PMDB permaneça no governo. Tenho certeza que meus ministros têm compromisso com o governo”.

O PMDB marcou para o dia 29 de março a reunião para que o partido desembarque do governo. Ontem, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com o presidente do Senado, Renan Calheiros e o ex-presidente José Sarney para tentar manter o partido na base, mas não conseguiu os apoios necessário. Questionada sobre o insucesso de Lula junto ao PMDB, a presidente Dilma disse que ele “não estava tratando disso”. Mas não deixou de lançar um pedido ao partido para permanecer na base aliada. “Nós queremos muito que o PMDB permaneça no governo. Tenho certeza que meus ministros tem compromisso com o governo. Vamos ver quais serão as decisões do PMDB e respeitaremos tal decisão”.

Dilma disse também que “não só acredita” que o presidente Lula vá para a Casa Civil, “como está trabalhando para tal”.

Golpe. A presidente Dilma voltou a chamar o processo de impeachment contra ela de “ilegítimo”, “ilegal” e “golpe”. Pediu também que houvesse “grande esforço para parar a tentativa sistemática de golpe” e elogiou a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, de trazer para a suprema corte todas os processos ligados ao ex-presidente Lula e que contém conversas dela própria em gravações. “A palavra não é comemorar. Todos os brasileiros devem ficar muito preocupados quando processos judiciais não são feitos dentro da lei”, disse ela, acentuando que “a base do estado democrático é o cumprimento por todos da legislação, da Constituição. Isso vale para presidente, ministro, Ministério Público, Polícia Federal, para todos os cidadãos, para cada um de nós, vale a mesma lei, dentro do princípio de que somos todos iguais perante a lei”. A presidente comentou ainda que considera a decisão do ministro Teori “importante importante porque ela estabelece o primado da lei, nas relações dos órgãos que investigam o presidente Lula”.

Dilma prosseguiu afirmando que as investigações contra Lula foram “um absurdo”. Em seguida, explicou que este processo, “feriu a base do estado democrático de direito e as garantias e direitos constitucionais” porque “vazaram um diálogo com a presidente da República”. E emendou: “autorizar ele (grampo) é uma violência legal. Vazar diálogos pessoais que não fazem parte do conteúdo da investigação é uma violência, é um padrão que não se deve aceitar, compactuar, padrão de comportamento que atinge a nós todos”. Depois de lembrar que, em privado, as pessoas falam de uma forma mais descontraída, sem se policiar como acontece, quando se está falando em público, e que é um absurdo gravar diálogos, a presidente Dilma condenou também o grampo a advogados. “É um absurdo violar direito de defesa grampeando advogado. Uma democracia moderna não compactua com esse tipo de prática”, comentou ela, acrescentando que a decisão de Teori foi importante porque a sociedade brasileira “conquistou a duras penas um processo que nos levou a construção do que temos hoje, que é um pais com liberdade de expressão, de manifestação, com instituições sólidas e preservá-las é nosso objetivo”.

A presidente Dilma não quis comentar a decisão do presidente da Odebrechet, Marcelo Odebrechet, de fazer delação premiada.

As declarações da presidente Dilma foram dadas em entrevista após visitar as obras de solo de construção do satélite geoestacionário de defesa e comunicações estratégicas que está previsto para ser lançado entre dezembro deste ano e fevereiro do ano que vem. O satélite é o primeiro equipamento totalmente controlado pelo governo brasileiro.

Desemprego. Ainda na manhã desta quarta-feira, a presidente Dilma afirmou que, apesar do desemprego ter subido a maior taxa aconteceu "na época do FHC", referindo-se ao governo tucano de Fernando Henrique Cardoso. "Esse desemprego é grande em relação ao mínimo que nós chegamos no meu governo, que foi de 4,6%", afirmou. "Mas temos certeza que estamos trabalhando forte para que esse desemprego seja revertido", completou. 

A taxa de desemprego apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nas seis principais regiões metropolitanas do País ficou em 8,2% em fevereiro - o maior patamar para o mês desde 2009. Considerando todos os meses, a taxa é a mais alta desde maio de 2009, quando foi de 8,8%.

 

Dilma disse ainda que o governo tem "duas grandes preocupações" com a economia, o desemprego e a inflação. Segundo ela, no caso do aumento de preços já é possível vislumbrar "boas notícias. "A boa notícia é que inflação já mostra todos os sinais de declínio. Há por parte do mercado, que geralmente é pessimista, a convicção de que inflação está em trajetória de declínio", afirmou. 

A presidente disse que é preciso somar os esforços do governo para reduzir o desemprego e a inflação em queda, mas disse que o País só voltará a crescer com o fim da crise política. "Acredito que o grande esforço para o Brasil voltar a crescer é estabilidade política", disse, ressaltando que  "a tentativa sistemática do golpe" com um processo de impeachment sem motivos prejudicam o País.

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