O lendário acervo é finalmente revelado

Médici revelou existência em 82

, O Estadao de S.Paulo

20 de junho de 2009 | 00h00

O arquivo do major Curió virou lenda em 1982, quando o ex-presidente Emílio Garrastazu Medici afirmou, em meio a uma entrevista, que o agente sabia de "muita coisa" a respeito da Guerrilha do Araguaia. Foi o suficiente para jornais e revistas saírem à procura dos documentos.Em 1983, o Jornal da Tarde informava que Curió pretendia abrir o arquivo, que traria "coisas interessantes". Em entrevista ao jornal americano The New York Times, em 2004, o major disse que não podia levar para o "túmulo" o que sabia e, novamente, afirmou que divulgaria o acervo.Os documentos citados nesta edição do Estado estavam dentro de uma mala de couro guardada em uma caixa de madeira, no porão de uma casa de sítio, no sul do Pará. Curió também repassou dezenas de pastas, cinco mapas, além de caixas de plástico e de papelão com documentos que ainda estão sendo analisados.Há muitos papéis de caráter privado e interesse apenas familiar. O arquivo pessoal do agente da reserva abrange um período extenso, que vai da década de 1960 à década de 1990.No caso dos documentos que estavam na mala de couro, o arquivo Curió relata a terceira e última campanha militar no Araguaia (outubro de 1973 a outubro de 1974). As históricas reportagens do Jornal da Tarde, em 1979, e de O Globo, em 1996, relataram as duas primeiras campanhas, de abril a novembro de 1972.O arquivo Curió detalha, na visão militar, a história da matança de prisioneiros descrita em A Ditadura Escancarada, do jornalista Elio Gaspari, revisa depoimentos divulgados na imprensa nos últimos anos, confirma e derruba versões de oficiais e explica os motivos dos fracassos das cinco tentativas do governo de localizar corpos de guerrilheiros.Quando terminaram os combates no Araguaia, Curió e outros oficiais firmaram um pacto de silêncio de 30 anos. Em 2005, eles já estavam livres para relatar suas memórias. Críticos do governo Lula e em especial da farra das indenizações concedidas pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça desde o governo Fernando Henrique Cardoso, os militares da reserva tomaram a decisão de não falar o que sabiam.Mesmo com divergências internas, o grupo de oficiais que esteve no Araguaia mantém, em público, uma coesão e um forte respeito mútuo. Eles temem que, ao contar o que sabem, ajudem a alimentar "ataques injustos" contra colegas. "Estávamos cumprindo uma missão constitucional", diz Curió. "Os oficiais que combateram a guerrilha foram leais companheiros."

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