Dida Sampaio/Estadão, Gabriela Biló/Estadão
Dida Sampaio/Estadão, Gabriela Biló/Estadão
Imagem William Waack
Colunista
William Waack
Colunista
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O justiceiro e o injustiçado

Sérgio Moro e o ex-presidente Lula esperam vencer o julgamento moral

William Waack, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2021 | 03h00

O ex-juiz Sérgio Moro e o ex-presidente Lula estão prontinhos para se enfrentar num segundo turno das eleições. Já se tratam como adversários prováveis e sugerem um duelo clássico: quem terá maior competência política para fazer prevalecer a própria narrativa e bloquear a do adversário, a essência da política.

Grosso modo ambos brigam por assumir os mesmos atributos aos olhos do eleitorado. Consideram-se vítimas de injustiças praticadas por poderosos que ousaram desafiar. Admitem que erros políticos ou de conduta pessoal no passado empalidecem diante dos objetivos que queriam alcançar.

A Lula sobra o cinismo que o surrado animal político consolidou em mais de meio século de atividade política, numa riquíssima trajetória na qual trafegou da defesa de convicções rumo à busca de oportunidades (de todo tipo). A Moro falta a importante ferramenta política da arte da dissimulação, mas sobra a convicção (pois entendeu bem Maquiavel) que em política é impossível realizar princípios, mesmo os do Direito.

O que cada um apregoa como mérito e virtude é exatamente o que o outro afirma ser vileza e vício. Ambos pedem que o eleitor faça um julgamento moral. Fala a “verdade” quem diz “eu prendi os facínoras e fui traído” (Moro) ou quem afirma “os facínoras não me deixaram ganhar as últimas eleições” (Lula)? Isto nada tem a ver com qual dos dois é o detentor da veracidade objetiva dos fatos recentes.

Na política fatos são a percepção que as pessoas têm dos acontecimentos, algo que nem sempre combina com o que se poderia considerar “elementos objetivos irrefutáveis”. O ambiente caótico das redes sociais tornou essa lição ainda mais importante – aliás, adversários políticos hoje sequer se entendem sobre o que seriam os fatos a serem discutidos.

O hipotético confronto Lula-Moro num segundo turno por enquanto fascina apenas a ínfima parcela de quem acompanha profissionalmente a política. Para quem duvida, na mais recente lista de buscas frequentes no Brasil em 2021 divulgada pelo Google (um confiável indicador de interesse do público) não figura nas principais categorias qualquer acontecimento ou nome ligado diretamente à política.

Estão lá no alto o medo da covid-19, a emoção com mortes súbitas de figuras queridas e o horror ligado a crimes. Além de como arranjar um emprego e ser feliz na relação. “Justiceiro” (Moro) e “Injustiçado” (Lula) talvez só fizessem sucesso se estivessem num dos vários reality shows que dominam totalmente a lista dos programas favoritos na TV.

Julgamentos morais são mesmo coisa rara em eleições.

JORNALISTA E APRESENTADOR DO JORNAL DA CNN

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.