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O jeito Itamar de ser presidente

Por ter sucedido Fernando Collor de Mello, que sofreu impeachment acusado de corrupção, Itamar imprimiu um padrão ético em seu governo

Tânia Monteiro, de O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2011 | 11h31

BRASÍLIA - Itamar Franco era conhecido por seu temperamento impulsivo. Era também obcecado em mostrar a todos que o cercavam que não tinha apego ao cargo e ao poder, que considerava completamente efêmeros. Como prova disso, mantinha um calendário pregado na parede de um pequeno escritório reservado de trabalho, ao lado de seu gabinete presidencial de despachos, no terceiro andar do Palácio do Planalto. O ex-presidente morreu neste sábado, 2, aos 81 anos.

 

Nele, marcava religiosamente cada dia que passava, que considerava um dia a menos no cargo. Justamente por ter sucedido Fernando Collor de Mello, que sofreu impeachment acusado de corrupção, Itamar imprimiu um padrão ético em seu governo. Desse modo, o surgimento de qualquer suspeita de irregularidades ou desvios fazia com que excluísse o auxiliar de seus cargos, por mais que fossem seus amigos.

 

Itamar não usava a garagem do Planalto. Todos os dias, quando chegava e saía do palácio, fazia questão de conversar com os jornalistas que ali faziam cobertura diária. Nas viagens, costumava dar carona aos jornalistas no avião presidencial. E quando os via nos cercadinhos que a segurança monta em todas as viagens, ia até lá. Costumava também chamá-los ao quarto do hotel em que se hospedava;

 

O ex-presidente preocupava-se com as coisas básicas do dia a dia, como o preço do botijão de gás, da mensalidade escolar, da taxa de juros do cheque especial ou das passagens de ônibus. Bastava que um jornalista ou um assessor o informasse que o preço do remédio tinha subido exageradamente - assunto que ele tinha fixação -, ou da gasolina, do pão ou do leite, para ele convocar o ministro da respectiva área e exigir explicações. Depois, chamava a imprensa para informar o que estava sendo feito para corrigir aquilo.

 

Ele odiava todos os rituais da Presidência e, principalmente, o aparato de segurança que o cercava. Não cansava de demonstrar isso. Também não se cansava de tentar driblar os seguranças ou fugir deles. Fez isso várias vezes em Juiz de Fora, cidade que adotou como sua terra natal, em Brasília, ou até durante viagens ao exterior. Ele queria sair "sozinho" com suas namoradas, para ir ao cinema, a uma feira de livro, ou mesmo "passear" de carro pela cidade.

 

Já chegou a sair escondido no carro com seu motorista, Pedro, da garagem do prédio que morava em Juiz de Fora na época que era presidente, para que não fosse acompanhado. Os seguranças passaram a se disfarçar para que não fossem reconhecidos e assim controlar os passos do presidente.

 

Quando ia para Juiz de Fora, sempre seguia em seu carro, dirigido pelo seu fiel escudeiro, comandante Carvalho. Certa vez, o pneu do carro furou na estrada e os seguranças fecharam a estrada para "proteger" o presidente. Pouco depois, Itamar "achou estranho" a estrada estar sem movimento e imediatamente foi saber o que estava acontecendo. Quando constatou que ela estava fechada, mandou reabrir a via, dando uma bronca no pessoal da segurança.

 

Itamar tinha adoração pela sua mãe - dona Itália Cautiero Franco - que estava acima de tudo e de todos. Quando, em novembro de 1992, ela adoeceu e chegou ao estágio final da vida, Itamar Franco chegou a transferir o seu gabinete de trabalho para Juiz de Fora e convocar os ministros para irem para lá despachar, o que acabou dando ao seu governo o título de República do Pão de Queijo.

 

O ex-presidente Itamar também decidiu ressuscitar, em janeiro de 1993, o antigo fusquinha. De acordo com interlocutores na época, com este pedido feito ao presidente da Volks, ele desejava não só agradar Lislie Lucena, uma antiga namorada, proprietária de uma unidade ano 1981 e apaixonada pelo modelo, como encontrar um carro que pudesse ser mais barato e mais acessível à população, alegando que existia uma parte que não era atendida pelos preços disponíveis.

 

Itamar fazia questão de frequentar os mesmos lugares de antes de assumir a Presidência da República. No Rio de Janeiro, só se hospedava no Hotel Glória. E, de lá, algumas vezes, saiu escondido pelos fundos, para um cinema ali próximo, ou mesmo tomar um chope no tradicional Bar Lamas. Durante um Carnaval, no Rio de Janeiro, Itamar protagonizou o maior escândalo de seu governo, que não teve nada a ver com corrupção - apareceu ao lado da modelo Lilian Ramos, sem calcinhas e foi fotografada assim.

 

Itamar Franco não hesitou em afastar um de seus amigos mais próximos, Henrique Hargreaves, que era Chefe da Casa Civil, quando apareceu como suspeito de desvio de verbas durante a CPI dos Anões do Orçamento, em outubro de 1992. Só o readmitiu mais de um ano depois, quando ficou inteiramente comprovado que Hargreaves havia sido acusado injustamente. Quando Hargreaves retornou ao cargo, Itamar foi prestigiá-lo. Trabalharam juntos até agora.

 

Itamar Franco já havia demitido outro amigo, o ex-senador Eliseu Resende (1929-2011), que havia sido nomeado ministro da Fazenda dois meses antes. Ele foi acusado de ganhos ilegais no período em que fora ministro dos Transportes, no governo João Figueiredo. Rezende não voltou a ocupar nenhum cargo no governo de Itamar.

 

 

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