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O isolamento do PT

Muito antes do Facebook, Lula fez campanha para Fernando Henrique (Senado, 1978), e Fernando Henrique pediu votos para Lula (2.º turno para presidente, 1989). O filho de general tornado intelectual perseguido pela ditadura militar teve mais do que inimigos em comum com o imigrante nordestino feito líder sindical e preso pelos mesmos militares. Compartilharam opiniões, objetivos políticos e alguns copos. Nem mais um gole.

José Roberto de Toledo, O Estado de S. Paulo

27 de julho de 2015 | 03h00

Dois confrontos diretos pela Presidência abriram feridas. Duas décadas de oposição de um contra o outro fecharam portas. Pelo “Face”, FHC diz que não quer nem papo com Lula. A falta de conversa é a negação da política. Mas quando era o tucano no volume morto, o petista tampouco jogou boia de salvação. 

A incomunicabilidade dos ex-colegas de palanque simboliza o apartamento de seus partidos. PT e PSDB repeliram-se tanto que, de faces opostas de uma mesma moeda social-democrata, viraram dois extremos que não se encontram nem no infinito.

A melhor síntese de quão afastados estão petistas e tucanos encontra-se na atual Câmara dos Deputados. Nas 130 vezes em que o governo orientou votações este ano, 95% dos votos do PT acataram essa orientação, enquanto 76% dos votos do PSDB foram do contra. Petistas e tucanos têm, respectivamente, as maiores taxas de governismo e de oposicionismo entre 28 partidos. Em 12 anos de governos do PT, nunca o PSDB fez tanta oposição.

As diferenças vão além dos votos. São estruturais. Petistas e tucanos têm quase mais nada em comum, nem os amigos. Cotejando-se as contas dos parlamentares de uns e outros no Twitter, descobre-se que não há duas bancadas mais distantes do que as do PT e do PSDB. Das centenas de combinações possíveis, nenhuma tem menos pontos em comum do que a de tucanos versus petistas. Nem PSOL versus DEM. Não apenas não conversam, tampouco convivem.

Em 2012, quando o afastamento crescia mas ainda havia diálogo, o PSDB apoiou 188 candidatos a prefeito do PT, e o PT apoiou 155 candidatos a prefeito do PSDB. Em 2014, as cúpulas dos dois partidos certificaram-se de que petistas e tucanos não se coligassem em nenhuma eleição estadual. Foi inédito. O PT se coligou uma vez até ao DEM, e o PSDB, três vezes ao PC do B. No bacanal eleitoral, só petistas e tucanos não se conectaram.

Provocado por ambos os lados, o afastamento provou-se pior para o PT. O partido de Lula tem base social diferente dos demais. Voltando seu discurso apenas para ela, dissociou-se das outras legendas e concorreu para seu próprio isolamento. De novo, o Twitter: dos 18 maiores partidos da Câmara, os deputados do PSDB têm mais amigos em comum com 15. O PT, só com PSOL e PC do B.

Quando a maré da popularidade estava a seu favor, o confronto com o PSDB ajudou o PT a fixar-se no poder. A disputa política afirmava sua identidade. A economia em expansão bancava o apoio suplementar de que o partido precisava no Congresso. Na ressaca da opinião pública, porém, a simpatia postiça cai e a aliança comprada se desfaz. Tome-se o PMDB. Eduardo Cunha faz agora em público o que José Sarney fez em 2014 na solidão da urna, ao ser flagrado votando em Aécio Neves e não em Dilma Rousseff.

PSDB e PMDB não apenas têm a mesma origem histórica, como mantêm inserções sociais mais similares. Em comparação aos tucanos, os deputados petistas estão 64% mais distantes dos aliados do PMDB, quando se cotejam suas redes de amigos no Twitter. O mesmo acontece com outros partidos da volúvel base de Dilma no Congresso. Em comparação ao PSDB, o PT está 169% mais longe do PSD, 113% mais distante do PR, 58% do PRB e 42% do PDT.

Com a economia em baixa e os esquemas de financiamento eleitoral em xeque, sobra pouco para os petistas contornarem tantas diferenças. É nesse cenário que Dilma luta por seu mandato, e os candidatos a prefeito do PT buscarão alianças em 2016.

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