O isolamento de Temer

Geraldo Alckmin e Rodrigo Maia já se afastaram. Henrique Meirelles pode ser o próximo

João Domingos, O Estado de S.Paulo

10 Março 2018 | 01h00

Diz-se que os últimos meses de um presidente da República que não disputa a reeleição costumam ser tão solitários que até café frio lhe servem. Quando lhe servem café. No caso do presidente Michel Temer não se pode nem dizer que ele não será candidato à própria sucessão, porque ele prefere manter um calculado mistério sobre o assunto. Mas que o isolamento de Temer já começou, já começou. 

Primeiro, foi o governador Geraldo Alckmin que, na presidência do PSDB e pré-candidato à Presidência da República, pulou fora do barco do governo chefiado por Temer. Agora, foi o mais fiel aliado de Temer do início do governo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pré-candidato pelo DEM, que também deu um jeito de se afastar. “Defender o legado (do governo) eu não estou disposto”, anunciou Maia na convenção do DEM realizada anteontem, quando foi lançado à Presidência. 

Note-se que Maia utilizou o substantivo legado, o qual merece especial atenção de Michel Temer. Há meses o presidente condiciona o apoio do Palácio do Planalto ao candidato que defender o legado do governo. Pois Maia poderia ter utilizado qualquer palavra para dizer que é candidato de uma nova geração, como disse; que é o candidato do futuro, como disse; que é a novidade da eleição, como disse. Mas ele preferiu meter o legado lá no meio do que falou porque sabe, e sabe muito, que se trata de algo caro a Temer. 

Pela disposição de Alckmin e de Maia, pode-se dizer que, nesse momento, eles não estão dispostos a se empenhar na defesa do legado de Temer. E não estão porque Temer encontra-se novamente em baixa, enquanto eles lutam desesperadamente para se agarrar em alguma coisa que os aproxime mais do eleitor do que um presidente impopular, que não melhorou substancialmente sua imagem nem com a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro.

Experiente na política como é, Temer sabia que começaria a ficar isolado. Tanto é que há pelo menos três meses ele começou a dizer que só apoiaria para a Presidência aquele que se comprometesse a defender o legado de seu governo – olha aí a palavra, de novo. Mas esse alguém não veio. Temer, então, passou a alimentar a ideia de ele mesmo se tornar candidato. Poderia ter, assim, condição de defender as reformas feitas pelo governo e também sua honra.

Ao acenar com a possibilidade de se candidatar à própria sucessão, Temer arrumou confusão no MDB. Acontece que boa parte dos deputados e dos senadores do partido não gostou da ideia da candidatura própria. Viram nela uma ameaça à cota do fundo eleitoral a que terão direito. Com uma eleição presidencial, é claro que uma parte do dinheiro que iria para a campanha dos deputados será drenada para ela. E o MDB, como se sabe, não é um partido dado a chegar à Presidência pela via eleitoral. Prefere ocupar o poder em coparceria, como fez nos governos de Lula e de Dilma Rousseff.

Diante dessa realidade, perdeu força, pelo menos por enquanto, a possibilidade de o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, transferir-se para o MDB e ganhar o direito de ser candidato. Não só por causa da questão do fundo eleitoral, mas também porque Temer sabe que, se entregar o MDB a Meirelles, no dia seguinte o ministro sai em campanha e o deixa só, como já o fizeram Geraldo Alckmin e Rodrigo Maia. 

Para tentar evitar que o temível isolamento se aprofunde, a ideia defendida por Temer é manter até julho o mistério sobre a possibilidade de se candidatar. Nesse mês, acredita ele, o País estará envolvido nas convenções partidárias que escolherão os candidatos. A depender da ebulição política, Temer então dirá se vai ou não concorrer. Ou se vai oferecer o apoio do MDB a um candidato que, no desespero da conquista de votos, prometer enfim fazer a defesa do seu legado.

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