O inimigo que tira o sono do Planalto

Acostumado a ‘entregar o que promete’, Cunha vai sair candidato à presidência da Câmara

João Domingos, Débora Bergamasco, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2014 | 19h06

BRASÍLIA - O Executivo “que tudo faz e tudo pode”, na definição do líder do PTB, Jovair Arantes (GO), tenta, mas ainda não conseguiu minar o favoritismo do peemedebista Eduardo Cunha (RJ) na disputa pela presidência da Câmara no ano que vem. O lançamento oficial da candidatura está marcado para 2 de dezembro, dando início a dois meses em que o governo fará de tudo para impedir o que seria a coroação de anos de atuação do líder do PMDB em prol de seus aliados.

Esse favoritismo vem sendo construído há anos. “Eu fico admirado com a capacidade de trabalho dele: sabe o nome de todos os deputados, sejam do PMDB, sejam de outros partidos. E costuma entregar o que promete, o que não é comum aqui”, diz o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), ao explicar por que Cunha tem obtido adesão, apesar da resistência do Planalto.

O PT tentou encontrar um adversário à altura, mas não conseguiu. Entre os deputados, há um forte sentimento anti-PT. Tampouco tem sido uma saída convencer algum aliado a enfrentar o peemedebista.

Meia hora no gabinete de Cunha ajuda a entender como ele atua – e por que tamanho favoritismo. Na quarta-feira, o líder recebeu o Estado entre 16h e 16h30. Os telefones do gabinete e o celular não pararam de tocar. Algumas conversas não deixaram pistas de quem era o interlocutor, mas foi possível saber que eram parlamentares se aconselhando.

Entre os identificáveis, Jovair Arantes queria saber como deveria agir numa votação. Outro era o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), para dizer como procederia na ordem do dia. Cunha aconselhou ambos. As ligações foram curtas, quase telegráficas, mas suficientes para que os interlocutores se contentassem com a resposta. Também havia respostas a mensagens de jornalistas. Cunha trabalha em ritmo acelerado.

Entre tantas ligações, o deputado é questionado sobre um colega que, embora seja de um Estado sem litoral e não conheça ninguém da Friboi, recebeu doação eleitoral do frigorífico e de uma empresa do setor naval. O parlamentar também recebeu uma ligação do líder, dizendo: “Busquei doações para você”.

Ao Estado, Cunha perguntou: “É do PMDB? Se for, de fato busquei doações para nossos candidatos. Não há nenhuma mentira nisso que ele te falou. Eu e o Michel (Temer) fizemos isso. Captamos doações e enviamos para nossos candidatos”.

Na semana retrasada, o vice-presidente disse que se alguém se candidatasse contra o governo, mesmo do PMDB, estaria se contrapondo a ele, que é presidente do partido. Cunha tem dito ser candidato não de oposição, mas de uma Câmara independente. Na quinta-feira, Temer reafirmou ao Estado não aceitar candidatura que se oponha ao Planalto, mas esse não seria o caso do líder do partido.

“Se for uma candidatura que não seja contra o governo, e creio que não será, não terá problema nenhum. Ele (Cunha) vai disputar, é um jogo legítimo”, disse Temer.

Foi perguntado ao vice-presidente se via possibilidade de se oferecer algo a Cunha para ele desistir da disputa. “Não. Esse tipo de barganha não haverá. As pessoas se candidatam porque acham que devem se candidatar. Vou usar uma expressão entre aspas: ‘Não é porque se candidatam que devem ser compradas’.”

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