O homem que montou um império de poder sob o signo da tragédia

ACM sobreviveu às grandes reviravoltas de seu tempo e se manteve influente em todas as fases que atravessou

Carlos Marchi, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

O senador Antonio Carlos Magalhães foi o mais típico e o mais bem sucedido "coronel" da política brasileira contemporânea - sobreviveu como mandachuva na ditadura e na democracia, estendeu seu domínio político-eleitoral dos grandes centros urbanos às mais remotas roças. Tinha uma fina intuição que lhe garantiu a sobrevivência política: na ditadura, mandou como poucos civis; sentiu, antes de todos, o esgotamento do regime militar e aderiu a Tancredo Neves, candidato da redemocratização, num momento crucial. Adiante, diria que sua adesão acabou com a ditadura.Teve uma vida pontuada por muitas tragédias. Até ontem, morreu muitas vezes e conseguiu ressuscitar em todas. Sua primeira morte foi em 1982, quando seu candidato ao governo da Bahia, Clériston Andrade, faleceu num acidente de helicóptero às vésperas da eleição. A segunda sobreveio em 1986, quando a filha Ana Lúcia se suicidou, aos 28 anos.A seqüência foi inclemente: em 1989, no auge do poder, um enfarte fulminante o abateu e o cardiologista Adib Jatene o fez reviver com uma cirurgia milagrosa - entre pontes de safena e mamárias, implantou-lhe até um naco de músculo de coração bovino no peito. A quarta e mais sofrida o atropelou em abril de 1998, quando perdeu o filho Luís Eduardo Magalhães, que iniciava uma promissora carreira política, em cujo vértice estava a Presidência da República. "Por que não eu?", balbuciava ele no velório, vergado pelo sofrimento. Agora, sobreveio a quinta e inexorável morte.BANDA DE MÚSICAEle foi o último exemplar da velha "banda de música" da UDN, dono de um estilo combativo que abalava o poder dos adversários com um discurso, como fizera no passado Carlos Lacerda. Canalizava a mesma ferocidade, em outra dimensão, para pressionar aliados que lhe negassem um favor. Adaptou a lógica ancestral do mandonismo político nordestino: foi o primeiro grande "coronel" com jurisdição ampla, mesclando a dominação dos antigos "coronéis" do meio rural com um sofisticado esquema de informação e manipulação tipicamente urbano.Seu lado mais conhecido era a truculência com que tratava os aliados que compuseram com ele um cenário de absoluta dominação da Bahia por mais de quatro décadas. No exercício desse modelo de mando, combinou o mérito de atrair para a Bahia uma montadora de carros, a Ford, com tabefes na cara de aliados que desobedeceram a suas ordens ou questionaram seu poder político; harmonizou a expansão do Pólo Petroquímico de Camaçari com o uso ostensivo do chicote para colocar ordem no curral eleitoral.Com essa modelagem híbrida, sobreviveu a todas as fases políticas que atravessou na carreira, mesmo às grandes reviravoltas do seu tempo, e se manteve influente por quase quatro décadas e oito presidentes, do marechal Humberto Castelo Branco ao sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Amorteceu as críticas à forma agressiva de fazer política mediante três evidências: 1) modernizou a Bahia; 2) virou sinônimo da Bahia e da baianidade; 3) teve, com a cultura baiana e com a fusão religiosa, uma relação de profundo engajamento e afeto.ESPÍRITO SINCRÉTICOSempre trafegou impávido entre os ícones do sincretismo baiano, respeitado por todas as tendências e linhagens. Patrono do afoxé Filhos de Gandhi e do Olodum, foi afetuoso amigo de Jorge Amado, Pierre Verger e Carybé. Caetano e Gil, que certamente nunca pensaram como ele, nunca o criticaram abertamente. Seus aniversários eram comemorados em Salvador com meio feriado; a festa começava de manhã, com missa na Igreja do Bonfim, à qual ele, membro da Irmandade do Bonfim, assistia coberto por uma capa de cor vinho, entre parentes e incontáveis seguidores.Ignorou o protocolo e abraçou com fervor de sacristão generoso as manifestações sincréticas. Cumpria com fervor religioso o ritual de acompanhar os 8 quilômetros da procissão, desde a Igreja de Nossa Senhora da Conceição até a Colina do Bonfim. Na escadaria da Basílica do Senhor do Bonfim, presenciava a tradicional lavagem e, em todas elas, era banhado com a água-de-cheiro vertida dos cântaros das baianas. Não raro, era fotografado tomando a bênção de Mãe Menininha ou aboletado num abraço com dona Canô.Montou um império político a partir da primeira e sofrida eleição, em 1954, para deputado estadual, pela UDN. Desde o início, combinou um estilo agressivo com o pragmatismo que o aproximava do poder: foi abraçar o presidente eleito Juscelino Kubitschek, mesmo sendo ele do arqui-rival PSD. No regime militar, em 1964, já deputado federal (eleito em 1958 e reeleito em 1962 e 1966), se postou - mais do que um correligionário - como um arauto.A recompensa veio rápido: em 1967 foi nomeado prefeito de Salvador, saindo em 1970 para ser eleito indiretamente governador da Bahia. Quando deixou o governo, em 1975, foi presidir a Eletrobrás. Em 1978 voltou ao governo da Bahia, novamente por via indireta. Expandiu a escala de poder: primeiro, inaugurou um jornal - o Correio da Bahia -; depois montou uma televisão; acabou obtendo o direito de reproduzir o sinal da TV Globo na Bahia, que era da TV Aratu, para a sua TV Bahia.MALVADEZA E TERNURANasceu na Ladeira da Independência, bairro de Nazaré, Salvador. Quando criança, era "Toninho"; político, o ministro Golbery do Couto e Silva cunhou-lhe o rascante apelido "Toninho Malvadeza", que ele assumiu, para otimizar a sua fama de "coronel", desdenhando o caráter depreciativo. Adiante, propagou ele mesmo uma versão oposta do apelido - "Toninho Ternura". Em Salvador, era o "Painho", eufemismo sincrético que o ungia como cabeça coroada do Império da Bahia.A partir de 1994 a truculência de ACM foi paulatinamente abafada pelo estilo refinado e eficiente do filho Luís Eduardo Magalhães, eleito presidente da Câmara. Cansado das pressões de ACM, FHC atraiu o filho, que saiu da presidência da Câmara para ser líder do governo. Um clima de afeição se formou entre o presidente e o filho do seu incômodo aliado.Luís Eduardo cresceu e domou ACM, orgulhoso da performance cada vez mais graduada do filho. Um ano antes das eleições de 1998 a passagem do cetro na política baiana já estava aprazada: Luís Eduardo começou a trabalhar para ser candidato ao governo - o que, à época, equivalia a uma nomeação. Repentinamente, a morte sobreviria para ACM pela segunda vez: em abril, Luís Eduardo teve um enfarte e morreu, dois dias depois de Sérgio Motta, importante assessor de FHC.ACM demorou a se recompor. Reeleito presidente do Senado para o biênio 1999/2001, ele parecia lutar para reencontrar o prazer da política, que logo reverberaria com agressividade total.A partir de 1999, sustentou uma agressiva guerrilha com o senador Jader Barbalho (PMDB-PA). No início de 2001, o inimigo foi eleito para sucedê-lo e, ao mesmo tempo, FHC demitiu seus dois ministros - Rodolpho Tourinho, nas Minas e Energia, e Waldeck Ornellas, na Previdência. Sobre ele próprio pairava a ameaça de cassação pela quebra de sigilo do painel do Senado. Amargou doloroso processo de fritura. Pela primeira vez na vida se viu acuado, defendido apenas por seu advogado, Márcio Thomaz Bastos. Adiante a luta se tornou franca entre ele e Jader.ACM jogou a toalha em fins de maio de 2001, quando renunciou ao cargo de senador - pouco antes de Jader - para não ser cassado, brigando com FHC. Pouco depois, proclamaria da planície: "Eu não acabei."

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