O homem que jamais deixou de ser policial

Senador fez carreira como investigador e delegado no DOPS, onde trabalhou por mais de 30 anos

José Maria Mayrink, de O Estado de S. Paulo

26 de outubro de 2010 | 14h11

 

O filho de imigrantes sírios que, para desgosto dos pais, Zike e América, trocou uma próspera loja de vestidos de noiva da Rua 25 de Março pela Academia de Polícia, aos 20 anos de idade, jamais deixou de ser policial. Fez carreira de investigador e delegado na Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo, foi transferido para o Departamento de Polícia Federal e, na hora de se aposentar, disputou uma vaga no Senado, para nos 16 anos seguintes continuar fazendo em Brasília o que era a sua vocação, homem preocupado com a manutenção da ordem, o combate ao crime e a punição dos criminosos. Romeu Tuma, nascido em 4 de outubro de 1931, cumpriu uma promessa que fez em 1992, ao voltar a São Paulo em meio aos inquéritos que apuravam desmandos e corrupção no governo Collor de Mello.

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"A aposentadoria vai esperar, porque enquanto eu tiver pernas para andar, cabeça para pensar e boca para falar, eu vou trabalhar", anunciou Tuma em entrevista ao Estado, adiando para 1994 seus planos para o futuro. Ao chegar a hora, candidatou-se a senador e elegeu-se com mais de 5,5 milhões de votos, façanha que se repetiria na reeleição, em 2002, quando 7.278.185 eleitores lhe garantiram um novo mandato. Gostou tanto da política que nas eleições municipais de 2000 resolveu disputar a prefeitura da capital. Ficou em quarto lugar, atrás de e Marta Suplicy, a vencedora, Geraldo Alckmin e Paulo Maluf. Desistiu de um cargo no executivo e refugiou-se em Brasília. No Senado, foi corregedor parlamentar, presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional e membro de várias outras comissões, sempre voltado para assuntos de sua especialidade. Na Corregedoria, uma de suas atribuições era supervisionar a proibição de porte de arma, com poderes para revistar e desarmar quem infringisse o decoro, a ordem e a disciplina. Filiado ao PTB, depois de ter sido eleito pelo PL,Tuma era um senador respeitado, por causa da fama de xerife dedicado e eficiente que construiu na policia. Apesar de restrições de colegas de profissão e das suspeitas levantadas contra ele por sua ligação com os órgãos de informação durante o regime militar.

 

Foi no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) que Tuma trabalhou por mais tempo, 30 anos, ao longo de sua carreira, iniciada em 16 de janeiro de 1953. Primeiro como investigador, depois como delegado, tornou-se um policial conhecido pelas qualidades que, em sua avaliação, deve ter esse profissional: conhecimento técnico e um pouco de sorte. Em seu caso, muita sorte. Atuou na repressão a militantes de esquerda na ditadura, enfrentou o narcotráfico, caçou nazistas alemães escondidos em São Paulo – entre eles o médico Joseph Mengele, "o carrasco de Auchwitz", cuja ossada descobriu numa praia do litoral paulista – prendeu o mafioso italiano Tommaso Buscetta, comandou o confisco de boi gordo no Plano Cruzado, acumulou a direção geral da Polícia Federal com o cargo de superintende da Receita Federal, combateu a corrupção e esclareceu sequestros de gente importante, sempre com sucesso. Seu nome atravessou fronteiras e, ganhando prestígio internacional, acabou sendo vice-presidente da Interpol – cargo que continuou a ocupar, como título honorário, depois de eleito senador.

 

Algumas ocorrências deixaram marcas que Tuma não esqueceu. Uma delas foi a invasão da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), quando a polícia ocupou o campus da Rua Monte Alegre, em Perdizes, no governo Paulo Egydio. O delegado do Dops e sua equipe de agentes participaram da operação, identificando e prendendo líderes do movimento estudantil. Tuma, um ex-aluno da Faculdade de Direito da PUC, descreveu assim o episódio numa entrevista a Veja, em janeiro de 1982:

 

"Os estudantes insistiram em realizar uma manifestação ilegal. Não atenderam aos apelos da polícia do próprio secretário da Segurança, coronel Erasmo Dias. Então, tivemos que dispersá-los. Na área, não havia espaço para a fuga e os estudantes se acotovelaram no interior da faculdade, em corredores estreitos, e os incidentes se sucederam."

 

Outro caso, para ele inesquecível, foi a investigação da morte do padre Josimo Tavares, assassinado em 10 de maio de 1986 em frente da sede da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Imperatriz, sul do Maranhão. Tuma era diretor da Polícia Federal e, conforme revelou, saiu preocupado de Brasília para essa missão, por causa do clima de violência na região. "Chegando lá, tinha até passeata a meu favor", contou mais tarde, ao se candidatar ao Senado.

 

Esses dois episódios levaram o delegado a mexer com uma ala da Igreja que não era a de sua simpatia. Católico de missa e comunhão semanais, embora seu pai pertencesse à Igreja Ortodoxa, na qual ele se casou, Tuma discordava da ação política de bispos e padres do Brasil. Argumentava que essa era posição do papa João Paulo II. Ao lembrar que havia sido congregado mariano e era devoto fervoroso de São Judas Tadeu, o delegado insistiu que vinha de uma época em que a Igreja não entrava no campo da reivindicação social, mas cuidava da alma. Por causa de sua origem síria, sempre teve relações com a colônia árabe de fé ortodoxa em São Paulo.

 

 

Como policial de informação que defendia o recurso a métodos científicos e técnicos para o combate ao crime, Tuma dizia-se contra a tortura e a violência. Para quem por acaso duvidasse de sua palavra, evocava o testemunho insuspeito de militantes políticos e sindicais, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para provar que respeitava os presos. Em 1980, lembra o delegado, ele autorizou Lula a visitar a mãe doente no hospital e, em seguida, a ir a seu enterro.

 

"Escalei dois policiais, que acompanharam o Lula até o hospital, onde ele conversou com a mãe. Ela faleceu sem saber da prisão – os policiais se disfarçaram de operários e foram apresentados como colegas de Lula", contou Tuma dois anos após a ocorrência do fato. Na mesma época, o delegado convenceu o então metalúrgico e seus companheiros a desistirem de uma greve de fome e lhes serviu um prato especial no xadrez, porções de lulas à doré, encomendadas num restaurante das proximidades do Dops.

 

As denúncias contra Tuma partiram de militantes de esquerda e de vítimas da repressão. Em abril de 1992, membros da Comissão dos Familiares de Presos Políticos Desaparecidos afirmaram que o delegado, então diretor da Polícia Federal, sabia que o ex-preso político Rui Carlos Vieira Berbert estava morto e enterrado com nome falso em Natividade (TO), mas não deu essa informação à família. Num debate de candidatos paulistas ao Senado, em 1994, a ex-ministra Luiza Erundina acusou o delegado de ter omitido informações sobre a morte de ex-ativistas assassinados pelas repressão no começo dos anos 70.

 

Tuma era um policial obstinado pelo trabalho. Vivia dependurado ao telefone, que não deixava de atender nem de madrugada, sempre na expectativa de alguma informação importante para seu trabalho. Ligava constantemente para repórteres de sua confiança, para saber e informar o que estava acontecendo. Para não perder tempo, almoçava ou comia sanduíches em restaurantes e botecos vizinhos de seu gabinete. Sintonizava as frequências da polícia no rádio do carro e, em casa, via filmes policiais na TV.

 

Era casado com Zilda Dirane Tuma, com quem teve quatro filhos.

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