Marcos Correa/Presidencia da Republica
Marcos Correa/Presidencia da Republica

O guru de Bolsonaro e o sonho de despachar os generais para Cuba

Rede bolsonarista não hesita em qualificar como comunista ou simpatizante qualquer um que lhe apresente oposição

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 11h00

Caro leitor,

quando o inimigo bate às portas ou a guerra é declarada, a união sagrada toma conta dos países; esconjuram-se as divisões e as inimizades ficam no ar, suspensas, congeladas no tempo, esperando novo alvorecer rútilo, quente e calmo. As dissensões no Planalto eram tantas que a corte bolsonarista se viu ameaçada pelo despertar dos adversários em debandada desde a vitória de outubro.  Os estudantes foram às ruas diante da balbúrdia palaciana e ajudaram a refazer os laços partidos entre as alas do governo Bolsonaro.

Foi na Educação que olavistas e militares descobriram um campo comum de batalha. Foi na luta contra “a dominação da esquerda nas universidades” que eles se reencontraram na mesma trincheira sem que uns tentassem detonar granadas no foxhole do camarada. Enquanto o ministro Abraham Weintraub exibia-se cantando na chuva, muitos compartilhavam a mesma opinião, em silêncio, no Palácio. “Make ‘Em Laugh”, diria Donald O’Connor na Esplanada.

Militares, Weintraub e o ministro-chefe da Advocacia Geral da União (AGU), André Luiz de Mendonça, têm certeza de que é preciso se opor aos adversários do governo nas salas de aula do ensino superior, negando-lhes aquilo que o Supremo Tribunal Federal liminarmente afirmou por 9 a 0 em outubro de 2018: as liberdades de reunião e cátedra, mesmo nos períodos eleitorais.

Ao lado do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, eles têm certeza de que é necessário conter o uso das universidades como territórios autônomos dominados pelo “inimigo”. É conhecida a crítica da extrema-direita ao regime militar: ‘deixou o caminho livre para a esquerda nos sindicatos e nas universidades”.

Na quinta-feira, dia 30, o Ministério da Educação de Weintraub se esmerou em explicar como professores, pais e alunos não podem promover movimentos político-partidários. É claro que o movimento defendido pelos integrantes do governo, talvez, não existisse se a doutrinação ideológica em sala de aula se prestasse a disseminar apenas ideias conservadoras, conforme o leitor já leu aqui. Acossada pelo movimento contra o contingenciamento de recursos na Educação, fazia um mês que a rede bolsonarista não investia contra os militares do governo, que ela gostava de chamar de ‘ala positivista’, acusando-a de ser “antiamericana” e de “flertar com ditaduras comunistas”. Fazia. Não faz mais.

Da longínqua Virgínia, o guru do governo, o homem que nomeou Vélez, o Breve, o primeiro ministro da Educação – e talvez tenha nomeado o segundo, Weintraub, o Dançarino – resolveu romper a trégua. Olavo de Carvalho mais uma vez reacendeu o pavio de sua velha pendenga contra os militares que lhe barram o exercício do poder. Como um Iago a soprar a suspeita e a cizânia nos ouvidos do Mouro de Veneza, Olavo retomou em suas redes sociais os ataques à caserna. Depois do desastre de seu embate contra o general Villas Bôas, o homem, agora, escolheu se lançar contra os “militares moderados”. Pobre Desdêmona...

“Durante vinte anos tentei convencer liberais a aproximar-se das Forças Armadas. Eles nem ligaram. Enquanto isso, os comunistas iam ‘ocupando espaços’ no meio militar. É impossível, hoje, calcular a profundidade que a influência deles alcançou”. E seguiu o guru: “Mas a hospitalidade com que tantos (generais) se afeiçoam a ministros da defesa comunistas e o ódio manifesto com que chamam os conservadores de extremistas devem significar alguma coisa”, escreveu o professor de cursos online.  

Entre os moderados, está justamente Villas Bôas. E as provas de suas “simpatias esquerdistas” colhidas pela rede bolsonarista são fotos e vídeos do general ao lado do ex-ministros da Defesa e ex-deputado Aldo Rebelo assim como os elogios a ele e ao também ex-ministro da Defesa e ex-deputado Raul Jugmann – dois ex-comunistas – feitos pelo general na cerimônia de sua despedida do comando do Exército.  

O que Olavo, talvez, não saiba é que outros generais – inclusive da ativa – também mantém boas relações com Rebelo e publicam fotografias com o ex-ministro em suas redes sociais, como o comandante militar do Sudeste, general Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira.  Contudo, a rede bolsonarista é assim. Não pode ver em seu caminho nenhum obstáculo - generais ou jornalistas  - que vai logo chamando de comunista ou simpatizante quem se lhe opõe. Só falta mandar Villas Bôas ir com os demais generais para Cuba ou para a Venezuela.

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