O governo respirou, mas continua acuado e frágil

Vitória na sessão de análise de vetos não assegura base estável nem aprovação do pacote fiscal no Congresso

Ricardo Ismael (PUC-Rio), O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2015 | 10h55

O governo conseguiu uma mobilização que produziu o resultado que se esperava, embora tenha ficado para depois a análise do veto do reajuste do Judiciário. Conseguiu mobilizar a base, especialmente o PMDB. Há uma reforma ministerial em curso, foram prometidos cinco ministérios ao PMDB e o partido garantiu os votos necessários. Mas é importante lembrar que muitos deputados se ausentaram da sessão do Congresso, para não votar a favor do governo, mas também porque não quiseram agravar a crise, que levou à disparada do dólar e pode levar a uma repercussão ainda pior nas agências de ‘rating’. Os líderes da oposição só não conseguiram derrubar os vetos, só não conseguiram chegar aos 257 votos necessários, porque teve gente que se ausentou.

De qualquer maneira, foi uma vitória do governo, que ganhou fôlego e pode comemorar, mas não indica tendência de maioria estável na Câmara e no Senado e não assegura a aprovação do pacote fiscal que foi encaminhado ao Congresso. Também não resolve a questão financeira. A manutenção dos vetos não reduz despesa, apenas evita novos gastos. E o problema das finanças é o excesso de despesa. O governo tenta evitar o pior, o agravamento do déficit primário, mas ainda precisa avançar no corte de gastos. Vai enfrentar resistências muito grandes. Vai comprar briga com os servidores federais, que podem decretar greve, e ainda propôs aumento de impostos.

A um ano das eleições municipais, vai ser difícil conseguir maioria para aprovar um novo imposto. O governo conseguiu respirar, mas não tem a tranquilidade de que vai aprovar o pacote fiscal, muito menos de que tenha maioria estável no Congresso. Respirou, mas continua acuado e frágil.

Ricardo Ismael é cientista político, professor e pesquisador do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio

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