‘O governo não vai ser um governo do PT’

Dutra diz ter expectativa de que não só o PMDB, mas todos os partidos da coligação tenham uma postura de parceria

Malu Delgado, de O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2010 | 20h27

BRASÍLIA - O presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, afirma que Dilma Rousseff é o nome natural para a reeleição em 2014. A ressalva é que a petista precisará fazer um bom governo. Sem detalhar o papel que Luiz Inácio Lula da Silva terá fora do governo, Dutra enfatiza que o presidente é um "líder da humanidade". Numa conversa franca, de quase uma hora no diretório do partido em Brasília, ele admitiu ao Estado que o PT temeu uma derrota na primeira semana do segundo turno, quando as pesquisas internas mostravam uma diferença de apenas cinco pontos porcentuais entre Dilma e José Serra (PSDB).

 

No Congresso, o presidente do PT pede e espera por um clima "menos Fla-Flu". Além de evitar "adjetivar" o comportamento de Serra na campanha, ele admite que Marina Silva (PV), se tiver capacidade de aglutinar forças políticas, pode contribuir para a formação de uma oposição mais propositiva.

 

Qual foi o momento mais tenso da campanha?

 

Foi no segundo turno, quando o nosso tracking chegou a mostrar uma diferença de apenas cinco pontos entre os candidatos. Isso foi, se não me falha a memória, no dia 10 de outubro. Foi tenso não apenas por conta da diferença pequena, mas porque nós ainda não tínhamos conseguido superar uma certa perplexidade. Embora a candidata e todos nós disséssemos que não podia haver salto alto, é visível que houve entre todos nós uma sensação de já ganhou. Felizmente passada essa perplexidade conseguimos politizar a campanha, colocar temas que realçaram o que dizemos que seria desde o início a nossa estratégia, que era a comparação de governos, projetos e modelos.

 

Em seu discurso já como presidente eleita, Dilma fez um agradecimento explícito ao presidente Lula, Não citou o PT. O PT foi coadjuvante nesta eleição?

 

O PT não foi um coadjuvante. O PT teve e tem um papel fundamental na campanha. O PT tinha a candidata a Presidente, é um partido que cresceu. Hoje tem a maior bancada de deputados federais e a segunda maior bancada do Senado. Embora com um número menor de candidatos a governador o PT elegeu o mesmo número de governadores da eleição passada (5 eleitos).

 

O PT em 2006 lançou 20 candidatos a governador e elegeu cinco. Tínhamos uma estratégia clara de ampliar a aliança para a candidatura à Presidência da República, de ampliar bancadas na Câmara e no Senado e estabelecemos a política de lançar candidatos ao governo em Estados onde nós claramente tínhamos chance de vitória. Do ponto de vista eleitoral o PT se fortaleceu, mostrou sua força e crescimento. Teve um papel importante na campanha e terá também no governo. Agora, desde o início nós temos dito que a candidatura da Dilma não é do PT. É uma candidatura de uma ampla aliança que pela primeira vez conseguiu estabelecer, já na coligação eleitoral, a base de apoio que terá no Congresso. Mas o PT não será protagonista deste governo.

 

A protagonista é a presidente. E a presidente é do PT. Apenas em função disso já se demonstra o protagonismo do partido. Mas sempre colocando muito claro: o PT não é o único partido da aliança. O governo não vai ser um governo do PT.

 

O grande desafio de Dilma será não ficar à sombra de Lula. Como ele pretende atuar no cenário internacional e viabilizar seu novo papel político no Brasil?

 

Tanto o PT quanto esse bloco político não podem prescindir da experiência, da inteligência, da capacidade e da contribuição que o presidente Lula possa dar para o governo e para o Brasil. Lula sai com um apoio inédito na história do Brasil, com 65 anos de idade, portanto com sua plena capacidade política. Sinceramente não sei o tipo de ação que vai ser desenvolvida por ele, até porque ele nunca disse isso claramente para nenhum de nós. Ele tem dito que vai deixar o governo, mas que vai continuar atuando politicamente. A Dilma tem dito e já disse no seu discurso (de eleita) que vai continuar batendo à porta dele. Acho que tem que fazer isso mesmo. Não é que ele vai ser uma sombra.

 

A presidente é a Dilma. Mas não podemos prescindir da experiência do Lula. Ele é uma liderança política nacional, com repercussão internacional. Portanto, pode dar grande contribuição para o Brasil e para a humanidade. O Lula hoje é um líder da humanidade. Um País que tem um homem como esse não pode querer que ele bote o pijama e vá para casa.

 

Quando diz que ele "ainda tem 65 anos" é porque vislumbra a volta dele em 2014?

 

Se a Dilma ganha a eleição e faz um bom governo naturalmente ela é um nome natural para a reeleição. Mas eu não acho que vale a pena fazer qualquer especulação sobre a possível candidatura do Lula.

 

Na campanha, Dilma deixou claro que o sr. era o coordenador. Ela fez uma sinalização política ao PT, para apaziguar problemas na coordenação?

 

Como presidente do PT, era o nome natural para ser colocado como coordenador. Uma coordenação de campanha não se dá apenas por uma pessoa. Procurei não só aglutinar o conjunto do partido para a campanha, e acho que conseguimos isso já no congresso nacional do PT, quando o nome da Dilma foi homologado candidata por aclamação _ o que desmente uma tese que tentou ser construída de que o Lula estaria empurrando a Dilma goela abaixo do PT, o que não aconteceu _, como também a relação com outros partidos. A disputa interna no PT se resolveu dentro do processo eleitoral do PT.

 

O sr. concorda com as críticas que o presidente Lula fez em relação à mídia?

 

Nós do PT somos a favor da liberdade de imprensa. Nunca propusemos qualquer medida seja em nível partidário ou de governo de cerceamento e controle de conteúdo da imprensa. Agora, nós também temos o direito, da mesma forma que somos duramente criticados, de externar a nossa opinião sobre determinada matéria com a qual não concordamos. Se você for fazer uma análise do comportamento da mídia nesta eleição eu tenho uma avaliação, pessoal, de que houve órgãos da imprensa que se comportaram como órgãos de imprensa partidária. Eles têm o direito de fazer essa opção. Agora, eu tenho o direito também de rebater, de contestar, de dizer que determinado órgão se comporta como um partido.

 

Isso não significa de forma alguma que eu estou ameaçando a liberdade de imprensa. Quando o Obama disse que ia passar a tratar a Fox como um partido político, ninguém levantou a hipótese de que ele estava querendo cercear a liberdade de imprensa nos Estados Unidos. Como disse nossa presidente eleita, preferimos o emaranhado de críticas da imprensa do que o silêncio das ditaduras.

 

O sr. concorda com o presidente Lula que José Serra (PSDB) saiu menor desta eleição?

 

Não quero ficar entrando em adjetivação. A campanha foi muito dura. Na nossa avaliação a oposição enveredou por um tipo de campanha do submundo em alguns casos e momentos. Cada um tem que avaliar seu procedimento durante a campanha. Não cabe a mim fazer juízo de valor sobre adversários.

 

A oposição que se formará no governo Dilma pode ser um pouco mais conciliadora, pelos perfis dos novos personagens, como Aécio Neves (PSDB) e Geraldo Alckmin (PSDB)?

 

Fui oposição durante oito anos no Congresso. Quando falam que o PT fazia uma oposição muito mais raivosa do que o PSDB eu não concordo. Criticavam simplesmente por ser oposição. Claro que tem que ter uma oposição fiscalizadora. Isso é fundamental para a democracia. O que eu vislumbraria era que a gente pudesse ter no Congresso Nacional menos um clima de Fla-Flu, ou de Corinthians e Palmeiras, em que tudo o que vem do governo é errado e vice-versa.

 

Que pudesse ter um oposição dura, fiscalizadora, que não abrisse mão de seus princípios, que apresentasse alternativas, mas que fosse uma oposição civilizada. Acho que passado o calor da eleição todo mundo desce do palanque. Quem ganhou vai apresentar os projetos e quem perdeu vai exercer seu papel, criticar, mas, quando entender que uma proposta do governo é boa para o País, se somar a ela.

 

A votação significativa que Marina Silva teve neste processo, que muitos chamaram de Terceira Via, pode ajudar na construção desta oposição mais propositiva?

 

Essa terceira via vai depender da capacidade que a Marina tenha de aglutinar um bloco político que reflita a votação que ela teve na eleição. Na medida em que ela consiga aglutinar forças políticas cujo peso se aproxime do peso que ela teve na votação com certeza pode funcionar como uma espécie de atenuador desse clima de Fla-Flu que existe no Congresso.

 

O sr. acredita na capacidade política da futura presidente?

 

Acredito, até porque ela demonstrou isso na campanha. Muitos duvidaram da capacidade dela de ser candidata. Da mesma forma que ela aprendeu a fazer campanha ela também vai desenvolver sua capacidade de articulação política, até porque ela já faz isso. Um ministro também tem que ter capacidade de articulação política, e isso ela fez como ministra de Minas e Energia e na Casa Civil.

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