Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

O golpe incerto; leia análise

Na ausência dos protagonistas de sempre, as Forças Armadas, os especialistas, antigos e novos, se lançaram na tentativa de escalar as 27 polícias militares para o papel de força golpista

José Vicente da Silva e Leandro Piquet Carneiro, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 05h00

Roberto Bolaño escreveu um livro sobre algo que nunca existiu: A Literatura Nazista na América. Inventou autores, linhagens, estilos, descreveu e analisou obras que nunca foram escritas, biografou autores falecidos em 2039, criou um mundo povoado por seres imaginários que viveram e escreveram coisas abomináveis. O 7 de setembro de 2021 no Brasil parece ser um dos capítulos deste livro. “Suas histórias nem sempre são originais. Seus personagens quase nunca”. A história do golpe não prosperou. Ninguém conseguiu decifrar ainda como uma rajada de zaps se materializaria em uma conspiração de quem tem o poder de fato para conspirar. Centenas de artigos tentaram, ainda, explicar as engrenagens da sublevação e exploraram de forma quase anárquica os subterrâneos imaginários das instituições militares e policiais.

Na ausência dos protagonistas de sempre, as Forças Armadas, os especialistas, antigos e novos, se lançaram na tentativa de escalar as 27 polícias militares para o papel de força golpista. Como são muitas e variadas, e não têm um comando único, as suspeitas da vilania não tiveram sequer o direito de se apresentar diante do tribunal dos sábios que as converteram em algozes da democracia. Afinal, uma tribo sem memória e sem chefe pode ser acusada de qualquer coisa. A primeira acusação é de que são "bolsonaristas", que gostam das ideias autoritárias do errático governante e que estão dispostos a segui-lo no seu desejo de aniquilar o poder judiciário e o Congresso.

Alguns números foram até produzidos para tentar socorrer a tese. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública alega que 21% dos policiais do Brasil interagiram em ambientes virtuais classificados como "bolsonaristas radicais" e outros 17% em "ambientes bolsonaristas". Um terço, portanto, dos policiais do Brasil estaria alinhado ao "discurso do bolsonarismo antidemocrático e radicalizado”. Em artigo publicado recentemente na piauí, Renato Lima e Glauco Carvalho utilizaram esse levantamento como base para afirmar que mais de cem mil policiais no Brasil “aceitariam rupturas institucionais sem maiores constrangimentos éticos ou morais”. Não apenas faltou cuidado na inferência, como houve excesso de confiança na força política do argumento.

Aqueles que se lançaram nesse debate com o intuito de alertar a população sobre o "risco das PMs" deveriam explicar o mecanismo que ligaria as polícias militares das 27 unidades da Federação ao "bolsonarismo radical". Quando os dados são mudos, fatos anedóticos ajudam a criar uma narrativa. Computadas as notícias publicadas em jornais, Lima e Carvalho encontraram 17 casos nacionais de PMs reprimindo adversários de Bolsonaro entre janeiro de 2020 e agosto de 2021.

Nesse mesmo período, as polícias militares de todo o país realizaram pelos menos 50 milhões de intervenções de vários tipos: realizaram abordagens de suspeitos, atenderam a milhões de emergências criminais, fiscalizaram o trânsito, prestaram auxílio em momentos de necessidade e dor. Nunca é demais lembrar a matéria da qual é feita o trabalho policial: do risco e da coragem das mulheres e homens nas polícias militares, nas guardas municipais, nas delegacias e prisões. Afirmar isso não equivale a ser tolerante com a má conduta daqueles que, por temperamento e caráter, forjaram uma estranha visão sobre as regras e normas  que deveriam seguir. A narrativa de que as polícias estariam tramando um golpe, não é apenas errada e desamparada de fatos, ela divide e estigmatiza os 79% que, segundo o próprio levantamento realizado  pelo Fórum Brasileiro, estão fora da influência "bolsonarista radical".  O problema do argumento da "contaminação das polícias" não é apenas a sua estética "WOKE" e apelo "lacrador", extrapolar fatos isolados de má conduta para o conjunto de 400 mil policiais militares pode destruir os canais de comunicação que precisamos ter com as instituições policiais e suas lideranças.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública surgiu com a promessa de ser uma ponte entre a pesquisa, a universidade e as polícias do país. O Fórum faz um trabalho importante de organização de dados e edita uma revista de qualidade dedicada à segurança pública, mas erra feio quando afirma que os policiais militares no Brasil inteiro estão dispostos a reprimir movimentos sociais de oposição ao presidente ou ir para as ruas para apoiá-lo numa aventura institucional. Essa é uma fala de quem não parece entender o meio policial e sua organização institucional, o que definitivamente não é o caso de Lima e Carvalho. O primeiro por ter sido a liderança que impulsionou a criação do Fórum, onde atua como seu principal executivo desde então, o segundo por ser um oficial destacado com os mais importantes comandos da Polícia Militar de São Paulo durante sua carreira e também por sua brilhante passagem pela USP onde completou seu doutorado. Por que tão qualificados especialistas se dedicam a propagar uma tese que muito provavelmente se desvanecerá na quarta-feira de cinzas de setembro? Talvez pelo temor sincero de que ao repetir essa tese de confraria de sociólogos, conseguirão evitar que o mal aconteça. Pode ser, mas não deveriam contar com a generosidade dessa interpretação. Aos ouvidos dos policiais, a  elástica inferência é insustentável e depreciativa. Parece política.

Agora o que nós pensamos.  Não haverá golpe apoiado pelas polícias militares. Estamos comprando o seguinte título com vencimento no dia 8 de setembro: “os protestos de 7 de setembro serão como os desfiles das marias-fumaças na porta do palácio da Alvorada”, ou “a parada militar para ditador africano ver”. Nada de prático acontecerá, não haverá mortos na porta do Congresso ou do STF, bem como nenhum morto em São Paulo, no Rio ou em Belo Horizonte.

Esse otimismo deriva de uma suposição simples: Polícias Militares não são bandos armados simplórios só contidos por rígidas normas militares; ao contrário, são organizações que se modernizaram nos últimos 30 anos, com qualidade de treinamento, tecnologia e gestão - claro, há desonrosas e conhecidas exceções entre as 27 unidades da Federação. Em vários aspectos, muitas PMs no país avançaram mais do que as Polícias Civis além de serem as únicas agências públicas que efetivamente atendem praticamente todo o território nacional 24 horas por dia.

Não custa lembrar um argumento que já apresentamos aqui: das 756 intoleráveis greves de policiais ocorridas entre 2008 e 2020, as PM responderam por apenas 7%, justamente devido a sua disciplina militar, senso de dever e sentido de interesse público.

Há uma poderosa força de proteção institucional; a cultura organizacional dessas instituições, lastreada por valores e décadas de aprendizado  profissional, filtra a influência episódica de lideranças políticas e dos governantes do momento. Casos isolados, como em todo fenômeno social, não justificam generalizações que só contribuem para opor a opinião pública às suas polícias.  

É evidente que muitos  policiais militares nutrem simpatia por Bolsonaro, porque esse é o primeiro político de projeção nacional que exibe inequívocas manifestações de apreço e apoio a esses profissionais. Ao enaltecer os policiais, Bolsonaro trama sua sobrevivência política, não como o chefe de Estado de um governo autocrático, mas como o líder de um clã que depende de mandatos políticos para sobreviver. E o apoio eleitoral dos policiais tem se mostrado  decisivo para manter o clã Bolsonaro na política. Por isso o presidente desenvolveu uma linha de ação que contrasta com a maioria dos governadores. As principais lideranças políticas do país, desde a redemocratização, tratam seus subordinados policiais militares com clara indiferença e até mesmo se esmeram nas ameaças de rigor disciplinar, negando-lhes o respeito, as condições de trabalho e os salários que merecem.  

Na quarta-feira de cinzas de setembro, o Brasil voltará a ser o que sempre foi na maior parte do tempo: um país grande com um Congresso, um Presidente  e onze juízes, e onde a maioria vive como quer e decide quem governa.

A vantagem de dizer tudo isso de véspera é que poderemos ser refutados no dia 7 de setembro. Compramos de véspera uma explicação do que poderá acontecer.  Os que ganharam de véspera com a tese das polícias golpistas, deverão explicar, com a mesma transparência, porquê estavam tão errados.

* José Vicente da Silva - ex-secretário nacional de Segurança Pública e coronel da reserva

* Leandro Piquet Carneiro - cientista político

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