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O fator tempo

Campanha oficial começa em agosto, mas efeito do calendário tardio é incerto

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2018 | 05h00

Com a autoestima em baixa desde que a Lava Jato dificultou sobremaneira sua vida, os políticos empurraram o calendário eleitoral lá para a frente, depois da Copa.

As convenções acontecem de 20 de julho a 5 de agosto. A propaganda em material impresso e nos palanques, em 16 de agosto. O horário eleitoral em rádio e TV, só no dia 31 de agosto! E a cobertura diária da Rede Globo, pela qual os candidatos se engalfinham, só em 20 de agosto.

A concentração da campanha em 45 dias leva os partidos e candidatos a raciocinarem que têm tempo de sobra. Fazem a analogia com os 42 km da maratona, como propôs Fernando Henrique Cardoso.

Iludidos pela areia que cai devagar da ampulheta, nomes sem qualquer traço de viabilidade eleitoral desfilam por aí, discursam, viajam, prometem e gastam um dinheiro que é artigo de luxo (ao menos o legal) numa campanha em que as torneiras do financiamento empresarial foram fechadas.

O que pretendem? Muitos operam segundo a lógica que sempre prevaleceu em eleições: quanto mais exposição, mais aumenta o cacife para negociar uma aliança favorável para si e seu partido, nacionalmente e nos Estados.

O calendário, essas estratégias, todo o blablablá enfadonho de uma pré-campanha que, essa sim, ficou loooooooonga demais, levam em conta os interesses dos políticos, não o do eleitor.

Esse, coitado, olha todo o dia para a gôndola de opções e não tem apetite de pegar nenhuma. Variando dos sabores picolé de chuchu a chilli com jalapeño, os candidatos modulam suas falas sem dizer de fato o que pretendem e por que postulam a Presidência num momento tão dramático para o Brasil, às voltas com o fim de uma crise econômica cujos efeitos ainda estão longe de terem sido superados, um impasse institucional que traz imensa insegurança jurídica e a necessidade de reformas amargas que ninguém ousa defender com todas as letras.

Até agosto, como estará o humor desse eleitor com o balé desconjuntado dos não candidatos e sua costura de alianças segundo a lógica pré-Lava Jato? E em que pé estará a própria Lava Jato?

São variáveis que foram proposital ou inadvertidamente deixadas de fora do cálculo da tática e da folhinha de 2018.

Pode ser que, quando os supostos maratonistas resolverem começar a dar o sprint para chegar entre os primeiros colocados, aquele corredor para o qual ninguém deu muita bola tenha imposto uma dianteira difícil de alcançar.

Essa é uma possibilidade que caciques eleitorais e candidatos de grandes partidos teimam em desprezar. Por ser um tema que realmente me intriga, costumo testá-lo diariamente em conversas com fontes à esquerda e à direita. E sempre aparece a mesma cantilena: quando chegar a hora de decisão de voto, vão prevalecer fatores como estrutura partidária, máquina, tempo de TV e alianças nos Estados.

Por essa lógica, nomes como Joaquim Barbosa e Jair Bolsonaro estariam fadados a desidratar. No caso do ex-presidente do STF, ainda há quem acredite (torça?) que ele nem vai conseguir ser candidato, uma vez que seu PSB estaria de tal forma atado a compromissos políticos aqui e ali que lhe negaria a legenda.

Esses dirigentes só não conseguem me explicar como a mágica vai ser operada se Barbosa chegar a mais de 10% na próxima rodada de pesquisas, algo bastante plausível, dados os seus índices nas últimas.

E como a construção ou desconstrução de atributos dos candidatos será feita com menos tempo de TV e menos grana. Aí é que surgem o risco de o caixa 2 e as fake news entrarem pesado na reta final, quando o calendário feito para ajudar os mesmos de sempre estiver sendo um fator de pressão sobre eles.

O eleitor que fique atento às voltas do relógio.

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