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O fantasma de Trump na eleição brasileira

Há sinalizações de que não haverá hierarquia a deter os bolsonaristas radicais

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2021 | 03h00

Em 2020, Donald Trump fez troça da pandemia, propagou tratamentos alternativos, viu sua popularidade ruir e perdeu uma eleição equilibrada. Saiu de cena com alegações delirantes de fraude, e seus apoiadores atacaram o Capitólio numa das cenas mais infames da bicentenária democracia americana.

Em 2020, Jair Bolsonaro fez troça do coronavírus e tornou o tratamento com cloroquina política de Estado. Neste ano, uma CPI expõe os erros e omissões de seu governo – que levaram a quase meio milhão de mortes – e a popularidade do presidente sofre abalos. Seus opositores, em plena pandemia, ganham as ruas em manifestações de peso.

Eis um cenário possível para 2022: Bolsonaro perde uma eleição equilibrada, alega fraude e seus apoiadores promovem algo equivalente ao ataque ao Capitólio. As cenas de violência da Polícia Militar no Recife e a passada de mão na cabeça do ex-ministro Eduardo Pazuello, o general recalcitrante, sinalizam que não haverá hierarquia a deter os bolsonaristas radicais.

O cenário da eleição equilibrada em 2022, semelhante à que opôs Trump a Biden, é a aposta do cientista político americano Christopher Garman, personagem do mini-podcast da semana. O diretor executivo da consultoria Eurasia previu, no início de 2018, que Bolsonaro chegaria ao segundo turno. Àquela altura poucos acreditavam no fôlego do capitão.

Garman argumenta que, mesmo no momento mais tenebroso da pandemia, entre março e abril deste ano, a popularidade de Bolsonaro ficou em 25%, mostrando que talvez seja este o piso do presidente. Na avaliação binária do “aprova/desaprova”, Bolsonaro costuma chegar perto dos 35%. Um levantamento feito pelo instituto Ipsos considerando 300 eleições nos últimos 25 anos mostra que, quando um presidente tem 40% de aprovação, suas chances de reeleição são de 58%. Ou seja, se subir 5 pontos na binária, Bolsonaro estará mais perto de ganhar que de perder.

Para Garman, Bolsonaro, assim como Trump, tem uma base mais sólida do que aparenta. O presidente perdeu parte da classe média urbana do Sudeste e do Sul – os que, na semana passada, aplaudiram o depoimento da infectologista Luana Araújo na CPI. É forte, no entanto, no nicho que desconfia da política, dos jornais e da “elite”. Esse contingente – os que gostaram da atuação da médica Nise Yamaguchi diante dos parlamentares – redobra seu fervor a cada vez que Bolsonaro é criticado na imprensa. A divisão do País está evidente nas redes sociais, como mostra a jornalista Adriana Ferraz em sua coluna O BBB da CPI.

O presidente também ganhou pontos entre os mais vulneráveis, ao capitalizar o auxílio emergencial criado pelo Congresso. E pretende viabilizar seu próprio Bolsa Família – batizado provisoriamente de “Alimenta Brasil” – para o ano eleitoral.

Há pedras no caminho. Trump tinha 41% na binária e mesmo assim perdeu a eleição, contrariando a regra do Ipsos. “Pesou a rejeição alta, que pesará igualmente contra Bolsonaro”, diz Garman. O presidente também depende de um Centrão feliz, que não coloque em pauta um pedido de impeachment, e de que a “terceira via” não encontre um candidato capaz de tirá-lo do segundo turno. Se Bolsonaro chegar, Garman prevê uma disputa renhida – e não descarta o “efeito Capitólio” em caso de derrota do presidente. “Se isso ocorrer, acho que a democracia brasileira, como a americana, será forte o suficiente para resistir.” Tomara.

Para saber mais

Mini-podcast com Christopher Garman:

O BBB da CPI, por Adriana Ferraz

Análise de Marcelo Godoy, no Estadão, sobre a indisciplina de Pazuello

Editorial do Estadão sobre a indisciplina de Pazuello

Editorial do Estadão sobre a Polícia Militar do Recife

Editorial do Estadão sobre as manifestações contra Bolsonaro

*COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’ E ANALISTA DE ASSUNTOS POLÍTICOS

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