O exemplo esquecido do general Zenildo para o Comando do Exército

Após Pazuello, generais defendem proibir oficiais da ativa no governo; ex-ministro não foi o primeiro da ativa a ser nomeado para cargo político de natureza civil por Bolsonaro

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2021 | 10h00

Caro leitor, 


O mundo político sempre procurou os quartéis para resolver problemas. Raul Jungmann havia acabado de ser nomeado ministro da Reforma Agrária quando decidiu pedir ajuda ao comandante do Exército, general Zenildo Zoroastro de Lucena. "Fui solicitar se ele poderia me ceder alguns oficiais da ativa para comandarem o ministério em dois ou três Estados críticos", contou Jungmann, que mais tarde ocuparia a pasta da Defesa no governo Michel Temer.  O general, um cavalariano nascido no Rio, respondeu: "Eu vou lhe atender, mas com militares da reserva, porque os da ativa são a Instituição, são a Corporação, e nós não podemos comprometê-la".

Jungmann fora nomeado por Fernando Henrique Cardoso para enfrentar uma das maiores crises de seu governo, após o massacre de Eldorado dos Carajás. Zenildo podia fazer o favor ao colega, mas o senso de dever e a preservação da corporação falaram mais alto. Quando o governo de Jair Bolsonaro foi formado, os generais do Alto Comando se esqueceram da lição de Zenildo. Passaram a ceder centenas de militares da ativa para funções civis. Um dos primeiros foi o general Rêgo Barros, nomeado porta-voz do governo, cargo civil de importância simbólica. A partir daquele momento, Bolsonaro falaria pela boca de um general da ativa.

Rêgo Barros é culto e moderado, tem o texto escorreito e ideias claras. Não se sabe como pôde ter-lhe escapado o risco de sua nomeação para as instituições. Durante anos, havia sido a voz do comandante do Exército, do general Villas BôasHoje, na reserva, transformou-se em um crítico do radicalismo que devora o País, de um poder que inebria e corrompe. Mas Rêgo Barros não teria assumido o cargo se outro general também não tivesse esquecido a lição de Zenildo: Edson Leal Pujol

Não escapava a Leal Pujol a preocupação de contaminação política das Forças Armadas. Pois foi no dia em que Rêgo Barros se despedia do quartel para ir ao Palácio que o então comandante do Exército disse que era necessário impedir que o Brasil trilhasse o caminho da Venezuela. "Quando Chávez chegou ao poder, seu discurso era o do combate à pobreza e à corrupção", lembrou. Chávez passou a interferir nas promoções e a política invadiu as casernas, envolvendo a cúpula militar. Pujol conhecia a história do país vizinho, assim como conhecia muito bem o "capitão pitoresco", como ele designou Bolsonaro em 2018. 

Rêgo Barros foi o precedente. A ele se juntaram os generais Luiz Eduardo Ramos e Walter Braga Netto, que somente passaram à reserva depois de meses exercendo cargos políticos no governo. A cada nova nomeação associava-se mais claramente o Exército à gestão Bolsonaro e condenava-se ao mais escuro porão a sabedoria do general Zenildo. O que permitiu ao Alto Comando do Exército fechar os olhos diante de tal inconveniente?  O historiador Christopher Clark descreveu como as elites governamentais europeias rumaram para o abismo em agosto de 1914. Deu ao seu livro o título de Os Sonâmbulos

Como um sonâmbulo, o Kaiser Guilherme II deu um cheque em branco ao imperador austro-húngaro em sua disputa com a Sérvia e a Rússia. A tragédia que se seguiu apagou as luzes da Europa e de toda uma época. Sonâmbulos permitiram mais tarde a nomeação de Eduardo Pazuello para a Saúde. Era para ser temporária. Mas e daí?  Levou 15 oficiais da ativa para o ministério na maior crise sanitária em um século.  Afinal, o que desejavam? A glória? A mágica da vitória envolveu o militar bolsonarista. Depois de 57 milhões de votos, ninguém mais precisava ordenar a tropa avançar; quando o comando percebia, a trincheira inimiga já havia sido ocupada. 

Pode-se dizer: não há como negar um pedido do presidente. Há sim. Imagine se o presidente fosse Lula... Quando as coisas chegam ao comando, tudo já estaria acertado antecipadamente? Os generais devem ter apenas juízo e obedecer? O capitão pitoresco – Bolsonaro nunca esqueceu a alcunha – resolveu derrubar Leal Pujol, em março deste ano, ao mesmo tempo em que se desfez dos comandantes das demais Forças e do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, depois que estes cometeram a heresia de lembrá-lo que as Forças se subordinam à Constituição como instituições de Estado e não de governo.

Mas ninguém então desconfiava de que o problema não era apenas o “temperamento do Jair”? Nenhum militar sentiu o radicalismo de uma extrema-direita aliada ao integrismo evangélico, ao ressentimento anti-intelectual e anticiência, ao reacionarismo taurino, que vê a cor vermelha em cada pano exibido diante de seus olhos? Ninguém percebeu a ralé que acompanhava o presidente e ameaçava o Supremo e o Congresso? Para seus opositores, Bolsonaro não é só uma questão de forma, mas também de conteúdo. 

Os militares radicais que o acompanham veem o Brasil à beira da guerra civil, pois não admitem e nunca admitiram a democracia, a não ser de forma instrumental. Há coronéis que têm a coragem de escrever e pregar a morte dos opositores do presidente. Outro disse que pode haver "luta sangrenta" na qual os inimigos serão "neutralizados" pelas Forças Armadas. No mínimo, preveem que a oposição perderá os cargos em 2022. Nem é preciso dizer que a culpam pelo destino que lhe desejam impor.

Vivem da mentira, de um apoio popular minguante, como mostram manifestações e pesquisas que insistem em desconhecer, cenário ideal para emularem Donald Trump no próximo ano. A radicalização está nos grupos de WhatsApp dos colegas da Academia Militar das Agulhas Negras. O da Turma de 1971, do general Luiz Eduardo Rocha Paiva, é um exemplo. Paiva é um dos teóricos do Poder Moderador inventado pela interpretação golpista do artigo 142 da Constituição. Recentemente, o coronel Cláudio Eustáquio Duarte produziu texto para atacar os generais Santos Cruz e Paulo Chagas, opositores de Bolsonaro. O coronel tenta transferir aos colegas a culpa do presidente por ter espalhado a cizânia e a anarquia na Força Terrestre. 

Isso porque o militar não deve lealdade ao chefe de governo, mas à Constituição. O texto do coronel revela a alma de seu bolsonarismo; este é visto como um projeto "dele", onde o capitão é personagem circunstancial, que deve ser relevado, ainda que faça o inverso do que se quer: em vez de ordem, indisciplina; no lugar do desenvolvimento, atraso; e no da transparência, as confusões familiares. Que outro movimento teria um ministro do Meio Ambiente que a PF diz defender madeireiras? Ou um ministro da Educação mal-educado? Ou nomearia para as Relações Exteriores alguém que buscava o isolamento dos párias? 

Qual a reação dele ao fato de Pazuello participar do comício de Bolsonaro, no Rio? A atitude foi considerada normal e justificada pelo comandante do Exército, general Paulo Sérgio, que agiu por imposição do presidente. O coronel e uma miríade de oficiais bolsonaristas defenderam a impostura de que o palanque não era comício e de que Bolsonaro não tem partido. Tem sim: seu partido é o Partido Fardado, como antevira o cientista político Oliveiros S. Ferreira. Assim como Pazuello só pôde subir no palanque do presidente porque ali estava a escada construída por quem esqueceu o exemplo de Zenildo.

Agora, políticos e generais – Santos Cruz e outros ouvidos anteriormente pela coluna, como o deputado Roberto Peternelli  – se dizem a favor de lei contra a nomeação de militares da ativa para cargos políticos de natureza civil. Que passem para a reserva, assim como juízes e procuradores são obrigados a deixar as carreiras ao ocupar ministérios. Ou seja: quem pôs a escada para Pazuello pode retirá-la. O general impune não deixou apenas a disciplina suspensa no ar. Ali também estão a democracia, a ordem pública, a paz e a tranquilidade da Nação. Elas são ameaçadas cada vez mais por radicais bolsonaristas, ainda que, por enquanto, só em grupos de WhatsApp.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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