Mikhail Klimentyev/Sputnik/Kremlin Pool Photo via AP
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O exemplo da Ucrânia

A propaganda personalista jamais subjuga um povo com discernimento livre, unido por seu país

Felipe Moura Brasil*, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2022 | 03h00

“Não há prova alguma de que as autoridades russas sejam tão astutas. É mais provável que realmente acreditem em suas ficções.”

A avaliação de Mikhail Zygar consta no livro Todos os homens do Kremlin – Os bastidores do poder na Rússia de Vladimir Putin, quando o autor reluta em atribuir o “antiocidentalismo” dos políticos de seu país a uma estratégia de manipulação.

Zygar prefere a tese de que “o círculo” de Putin criou “em volta dele um escudo de proteção contra a realidade”. “Eles tentaram convencer Putin de que ele era Atlas: Se fosse embora, o céu desabaria sobre a terra. E eles acreditam nisso.”

A propaganda cultivou a imagem messiânica.

Em 2008, a TV estatal mostrou Putin atirando tranquilizantes num tigre-siberiano e aproximando-se para colocar no animal uma coleira com GPS.

“No entanto, os zoólogos acabaram admitindo que tudo era uma grande encenação: o tigre era emprestado do zoológico local e não seria libertado. Para a segurança do primeiro-ministro, eles encheram o animal de tranquilizantes antecipadamente. Com isso, parece que o tiro de Putin foi suficiente para causar uma overdose no tigre, que morreu. Nada disso foi divulgado e, durante muito tempo, o site de Putin manteve um anúncio convidando os visitantes a seguir os movimentos do ‘mesmo tigre’, que supostamente perambulava pela floresta.”

Sergei Choigu, atual ministro da Defesa, turbinou o culto à personalidade do chefe.

“Foi ele quem organizou uma expedição de pesca em Tuva em 2007, quando o presidente foi fotografado pela primeira vez com o torso nu. Outra fotografia ainda mais famosa, em que Putin aparece em cima de um cavalo, de cabelos curtos e chapéu de caubói, também foi produto de uma viagem inspirada por Choigu em 2009. Choigu até ‘dirigiu’ a sessão de fotos. Foi ele quem escolheu o chapéu, bem como a árvore em que Putin subiu.” O presidente ainda atravessou um rio “três vezes para garantir que seu nado borboleta fosse bem capturado pela câmera”.

Choigu e Putin acreditaram tanto em suas ficções que, sem tranquilizantes, imaginaram tomar Kiev em dois dias, subestimando a resistência ucraniana e a reação do Ocidente.

A propaganda personalista, assim como ajuda Lula e Jair Bolsonaro a encobrir o dinheiro desviado da Petrobras e do MEC, ajuda Putin a encobrir a corrupção, a repressão e massacres como o de Bucha. Mas ela jamais subjuga um povo com discernimento livre, unido em defesa de seu país. Este é o exemplo da Ucrânia. Por lá, não há prova de que as autoridades russas sejam tão astutas.

*Colunista do Estadão e analista de assuntos políticos

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