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José Roberto de Toledo
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O eleitor São Tomé

Era visível, e a comparação das pesquisas Datafolha de 2015 e de 2013 confirma: quem protestou contra Dilma Rousseff domingo não foi quem ocupou as ruas há 18 meses. Foi a vez dos pais, não dos filhos, saírem de casa. Na onda original, mais da metade dos manifestantes não chegava a 25 anos. Agora, a maioria absoluta tem mais de 36 anos. Na média, 13 anos de idade separam um grupo do outro. Mas as diferenças não são apenas geracionais.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2015 | 02h05

O típico manifestante anti-Dilma é homem, tem cerca de 40 anos, fez faculdade, é assalariado com carteira assinada ou empresário, define-se como de centro-direita, tem mais chance de ser simpático ao PSDB do que a qualquer outro partido. É branco, mora nas áreas mais ricas da cidade e tem renda superior a dez salários mínimos. É a primeira vez que sai à rua para protestar.

Com 27 anos, em média, o jovem manifestante de 2013 também tinha diploma de nível superior, mas probabilidade bem menor de estar na População Economicamente Ativa (PEA). Era muito mais antipartidos políticos do que os atuais manifestantes (84% a 51%).

Além de perfis demográficos diferentes, os dois grupos têm agendas distintas. A pauta genérica, ampla e, às vezes, contraditória de 2013 deu lugar a uma ideia única em 2015: fora Dilma. O protesto dos jovens era contra os 20 centavos a mais nos ônibus, mas era também contra a Copa, contra os políticos em geral, pela educação e a saúde e para pôr uma foto no Facebook.

Apesar de todas as diferenças, situam-se na mesma cronologia. Se o jovem não tivesse ido à rua em 2013, é improvável que seu "tio" tivesse saído de casa agora. E não só pelo exemplo.

Dilma cometeu um erro tático em 2013. Assumiu a responsabilidade exclusiva de dar uma resposta à "voz das ruas". Sua aparição em cadeia de rádio e de TV, em meio aos protestos, foi comemorada pelos marqueteiros da oposição. Ela virou o para-raios daquela crise. Nunca mais conseguiu se livrar desse papel. Qualquer coisa ruim que ocorra virou, desde então, culpa da presidente.

Não que ela não tenha responsabilidade nem contas a prestar. A mãe de todas as crises foram a queda da atividade econômica e a perda da confiança, primeiro dos empresários e, depois, do consumidor. Essa fatura deve ser cobrada do jeito que Dilma escolheu conduzir a política econômica no primeiro mandato.

Não se pode dizer, porém, que a falta d'água em São Paulo seja sua responsabilidade. Mas muita gente acha que é. Nem que a corrupção nasceu ontem. Embora muita gente acredite que sim.

De tão experiente, a velha senhora - à qual Dilma fez menção em sua entrevista coletiva - sempre acabava impune. Na gestão petista, pôs silicone, aplicou botox e esticou tanto a pele que desalinhou os olhos. Ganhou cara nova, conta reforçada na Suíça e iludiu até FHC, que, sem reconhecê-la, a chamou de garotinha. Mesmo disfarçada, corre risco de acabar numa cela paranaense.

Não adianta o governo querer revelar a idade da corrupção. Os manifestantes de 2015 não querem conversa, querem ver Dilma longe do Palácio do Planalto. Salvo a improvável hipótese de a presidente topar uma retirada pela direita, um eventual diálogo entre ela e eles não duraria nem o tempo de um cafezinho. Dilma só tem chance de atingir outro grupo - que também avalia seu governo como ruim ou péssimo, mas não bate panelas por isso.

São os seus ex-eleitores e os ex-petistas que hoje se declaram sem preferência por qualquer partido. Eles perderam a fé na presidente e no PT menos pela corrupção do que pelo pessimismo econômico. Eles veem os preços subindo e acham que vão subir mais. Estão empregados, mas temem que não por muito tempo. Acham que vão poder comprar cada vez menos.

Para atingir esse grupo, não adiantam palavras, só ações. Como São Tomé, esse eleitor quer ver a inflação cair e a economia subir para voltar a crer que a urna leva ao shopping center.

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