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O eixo de poder de Ciro

Tendência é que candidaturas à Presidência se afunilem em três grupos distintos

João Domingos, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2018 | 03h00

No encontro que teve com dirigentes do DEM, PP, Solidariedade (SD) e PRB, Ciro Gomes, do PDT, fez um apelo aos presentes para que, junto com ele, ajudassem a acabar com a polarização entre PT e PSDB que marcou as últimas duas décadas e meia. Ofereceu-se como aquele que pode liderar a formação de um novo eixo de poder, amplo, que vai de sua posição, classificada por ele mesmo como de centro-esquerda, passando pelo centro e pela centro-direita. Esse conjunto de partidos poderia levar à população a ideia de que ele, Ciro, tem a intenção de trabalhar para pacificar o País, hoje muito dividido.

Ciro Gomes não fez o apelo só por fazer. Ele sabe que ainda durante a Copa da Fifa de 2018, ou um pouco depois de seu término, haverá um afunilamento entre as diversas candidaturas à Presidência da República. A tendência será a formação de três grupos, avalia o analista político Antonio Augusto de Queiroz, diretor de Documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), que acompanhou todas as eleições pós-redemocratização e vive o dia a dia do Congresso. 

Um dos grupos, de tendência social-democrata, poderia reunir alguns partidos de centro-esquerda, encabeçados pelo PT. Teria a oferecer propostas voltadas para um regime de bem-estar social (conhecido como “welfare state”), com iniciativas de distribuição de renda para a população mais pobre, e anunciaria a revogação de algumas medidas adotadas pelo governo de Michel Temer, como o teto de gastos públicos e a reforma trabalhista. Outro grupo apresentaria uma visão liberal fiscal, hoje representado pelas candidaturas do tucano Geraldo Alckmin e do senador Alvaro Dias, do Podemos. O terceiro grupo teria como proposta a formação de um Estado Penal, sob o comando do deputado Jair Bolsonaro (PSL). Dos três, só dois passariam para o segundo turno. Queiroz arrisca-se a dizer que sobrará o grupo de Bolsonaro, por falta de estrutura partidária e tempo de propaganda na TV e no rádio, e por um detalhe até agora pouco observado: a resistência do eleitorado feminino ao candidato conservador. 

Não haveria lugar para Ciro Gomes nessa configuração. Portanto, a única forma de ele arrumar um lugar entre os grandes, e lutar para chegar ao segundo turno, é buscar o apoio de partidos de centro-esquerda, como o PSB e o PCdoB, e da centro-direita, com os quais se reuniu na terça-feira passada. Além de fazer o discurso de que, com um arco de apoio de ideologias tão diferentes, pode se tornar o único candidato com uma proposta para acabar com a divisão na sociedade brasileira. 

Ciro Gomes sabe ainda que dificilmente receberá o tão sonhado apoio do ex-presidente Lula e do PT. Em primeiro lugar, porque Lula continua a acreditar que poderá sair da cadeia e ganhar, do STF, o direito de registrar sua candidatura, mesmo que sub judice. Os ânimos do ex-presidente melhoraram depois da decisão do STF, nesta semana, que absolveu a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, e seu marido, o ex-deputado e ex-ministro Paulo Bernardo, das acusações de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e caixa 2. Nas palavras do ministro Ricardo Lewandowski, as delações premiadas usadas pelo Ministério Público para abrir o processo contra Gleisi e Bernardo eram “imprestáveis”. 

Caso Lula não consiga registrar a candidatura, ele tem ainda a possibilidade de tentar transferir votos para o ex-prefeito Fernando Haddad, o eventual plano B do PT. De acordo com pesquisa encomendada pela XP Investimentos ao Ipespe, e divulgada ontem pela revista Exame, Lula tem potencial para transferir até 43% dos seus votos para Haddad, deixando-se, de cara, com 12% das intenções de votos dos eleitores consultados. É por essas constatações que Ciro busca servir, digamos, a dois senhores.

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