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O domínio dos fatos

Vamos ao ponto: José Dirceu só fez o que os investigadores da Operação Lava Jato dizem que ele fez na Petrobrás e cercanias da máquina pública porque a instância superior a ele deixou que fizesse. 

Dora Kramer, O Estado de S. Paulo

05 de agosto de 2015 | 05h00

Trata-se de uma conclusão lógica baseada numa série de evidências que agora ganham consistência com a justificativa para decretação da prisão preventiva apresentada em conjunto pelo juiz Sérgio Moro, o Ministério Público e a Polícia Federal. Foram contundentes quanto ao marco inicial da corrupção sistêmica na Petrobrás e ao papel de José Dirceu no esquema.

Segundo eles, na condição de ministro-chefe da Casa Civil, Dirceu instituiu a prática de maneira organizada, dela se beneficiou e a partir daquela sistemática foi “um dos líderes” de uma engrenagem de corrupção posta em funcionamento para beneficiar políticos, partidos, funcionários e empresas contratadas pelo governo. 

Este é o fato relatado a partir da coleta de provas testemunhais e documentais. Resta saber – e comprovar – se a instância superior a José Dirceu, a Presidência da República à época ocupada por Luiz Inácio da Silva, detinha o domínio daqueles fatos. 

Os investigadores já deram várias demonstrações de que não lhes falta rumo. Sabem aonde querem chegar, mas percorrem o caminho passo a passo, a fim de evitar movimentos em falso que já puseram a perder outras operações em função de nulidades judiciais. 

Obviamente as investigações se direcionam na busca de evidências que permitam desvendar a cadeia de comando até o topo. Acima dele só havia o então presidente que lhe conferiu delegação para transitar no governo na posição de “capitão do time”. Não será surpresa que venham a se interessar pelos sinais exteriores de riqueza de Lula. 

Caso venha a se pronunciar, contrariando seu feitio silente ante a adversidade, o ex-presidente certamente continuará negando que tivesse conhecimento sobre as atividades extracurriculares de seu braço direito. É o que vem fazendo desde quando disse ao País que havia sido “traído” sem, contudo, apontar traidores nem tomar providências contra os malfeitores. 

Olhando em retrospectiva, suas atitudes de lá para cá não ajudam a aferição de credibilidade às negativas e às alegações de desconhecimento. Inclusive porque Lula pareceu muito seguro em diversas ocasiões em que assegurou ao Brasil a inocência de seu partido e subordinados. O mensalão era, em seu dizer, “uma farsa”. Tal assertividade faz supor que tenha procurado se inteirar dos acontecimentos. Portanto, não pode alegar desconhecê-los.

Nesse caso, ou foi feito de tonto não só por José Dirceu, mas por toda gama de envolvidos, incluindo personagens que levava nas viagens oficiais e dirigentes de empresas que lhe patrocinaram viagens e palestras, ou se deliberadamente omitiu. 

Um dos problemas para quem constrói narrativas mutantes é o efeito cumulativo do tempo. Hoje, à luz das acusações que pesam sobre José Dirceu, uma frase que se perdeu no emaranhado do processo do mensalão ganha conotação especial. “Nunca fiz nada que o Lula não soubesse”, disse ele, em meio à eclosão daquele escândalo.

Nessa certeza obviamente se basearam os interessados em participar das triangulações contratuais no âmbito do aparelho de Estado, dado que Dirceu só poderia ser reconhecido como interlocutor abalizado se os interessados o reconhecessem como tal.

Sem o pressuposto de que os alicerces eram firmes o suficiente para não sofrerem abalos em decorrência de eventual decisão saneadora por parte do presidente da República, o esquema não poderia ter se mantido em pé.

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