O dia nas ruas com 'aula', dancinha e estrelas de TV

Candidatos têm estilos próprios para conquistar eleitor paulistano em campanha sem pirotecnia marqueteira e de poucos recursos financeiros

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2016 | 06h00

Pedir voto na rua é moda antiga, mas dançar, comer pastel, tomar café ou tirar selfie são tendências dos tempos atuais de financiamento restrito de campanha. Ao acompanhar a agenda dos quatro principais candidatos à Prefeitura da São Paulo, a reportagem constatou que todos eles adotaram um corpo a corpo vitaminado no lugar da pirotecnia marqueteira.

Nos dias 20 e 21 de agosto, foi a vez de seguir Celso Russomanno (PRB) em Heliópolis, na zona sul, e em Cidade Tiradentes, zona leste. Ele foi anunciado como o “Russomanno da Record”. Eventualmente, foi confundido com outras celebridades da TV, como Celso Portiolli.

Russomanno autografou santinhos, foi disponível para selfies e não teve pudores em degustar iguarias populares, como pastel. Nas caminhadas, o candidato deixou-se guiar por assessores. Não era raro ouvir as indicações: “olha lá”, “abraça aquele”, “ela quer uma foto”. E obedecia.

“Eu preciso de uma operação de catarata urgente”, afirmou um senhor de 64 anos. “Eu tenho um médico aqui que vai ouvir o seu caso”, respondeu Russomanno – apontando para um membro de sua comitiva. O senhor foi ouvido por cinco minutos pelo “médico” e recebeu a promessa de ajuda.

No dia 31 de agosto, o candidato João Doria (PSDB) foi visitar o Poupatempo da Sé, no centro. Como quer construir a imagem de “trabalhador”, as ações do candidato têm acontecido pela manhã. Lá, chegou um pouco antes das 8 horas. No lugar, interagiu mais com funcionários do que com populares.

Dos candidatos, ele é o que parece mais se preocupar com a imagem – posa para fotos, se posiciona em cenários mais adequados e interage com fotógrafos (repetindo alguns gestos até o melhor clique ser alcançado).

Como não é uma figura tão conhecida do eleitor, Doria tem se dado ao trabalho de se apresentar (ou deixa-se ser apresentado por algum vereador). No Poupatempo, faltaram populares, calor e selfies. Em um dos seus melhores momentos, deteve-se em uma conversa com o morador de rua Abimael Araújo de Jesus, de 44 anos. “Olha a voz que ele tem. Poderia trabalhar como radialista”, disse Doria – sugerindo que algum repórter poderia ajudá-lo a encontrar um emprego.

No mesmo dia, o prefeito Fernando Haddad (PT) caminhou pela Avenida Nordestina, em São Miguel, zona leste. Chovia relativamente forte e a caminhada chegou a ser desmarcada. Ele, porém, voltou atrás.

Como atual ocupante do cargo, Haddad tem o ônus de ter de prometer menos e falar mais sobre o que já fez. Com um terno um ou dois números maiores, ele, ao menos na caminhada, adotou um tom professoral (dá aulas na USP), explicando como conquistar votos.

Vez ou outra, o prefeito deixava escapar um fiozinho de mau humor. Na ocasião, foi monossilábico ao responder sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (que aconteceu naquele dia). Haddad não é de se jogar nos braços do povo – nem dançar na chuva.

Bailando. Já no dia 6 de setembro, Marta Suplicy (PMDB) foi visitar a Capela do Socorro, na zona sul. A candidata tem um expertise em caminhadas, sabe qual eleitor está mais disponível para um abraço, qual esboça mais simpatia e vai interagir positivamente à sua figura. Dançou ao som de seu próprio jingle (com dedinhos para cima e etc e tal). Ainda assim, um pedestre chegou a chamá-la de golpista (por ser a favor do impeachment); e outro a acusou de ser petista.

Como convém ao candidato que se dispõe ao corpo a corpo, não é de bom tom discutir. Marta sabe disso e ouviu uma jovem pedir à volta dos “cobradores de lotação”. A candidata foi rápida e disse que ainda pensaria sobre o assunto, não se comprometendo ou decepcionando a eleitora. Ela agradeceu a sugestão e seguiu dançando para um loja de roupas – onde as funcionárias já aguardavam ansiosas para aparecer como figurantes em Horário Eleitoral Gratuito.

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