‘O debate vai além de uma lista de marcados para morrer’, diz coordenador da Pastoral da Terra

Padre Dirceu Luiz Fumagalli ressalta que mortes atingem pessoas envolvidas na defesa da floresta, o que interessa a toda a sociedade

Isadora Peron / SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2011 | 19h47

O coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), padre Dirceu Luiz Fumagalli, fala com propriedade sobre os conflitos no campo. Para ele, o grande problema hoje pode ser resumido em uma palavra: impunidade. Segundo Fumagalli, dos mandantes dos 1.580 assassinatos que ocorreram no campo nos últimos 26 anos, há apenas um preso. "Quando o Judiciário tem de julgar e condenar os culpados é extremamente omisso ou cúmplice com aqueles que cometeram os crimes", disse.

 

A CPT entregou um relatório ao governo no qual aponta que 1.855 pessoas sofreram ameaças de morte no campo entre 2000 e 2011. O que tem de ser feito para protegê-las?

A primeira coisa que é preciso dizer é que esse número não esgota toda a realidade dos ameaçados no campo. A socialização desse dado tem o objetivo de abrir um diálogo com o governo e com a sociedade. As pessoas muitas vezes veem o campo como um lugar tranquilo de se viver e tem pouquíssima informação das lutas travadas e da importância dessas lutas. O fato é que este debate vai muito além de uma lista de marcados para morrer, mas é claro que o nosso primeiro objetivo é exigir a proteção a essas pessoas ameaçadas por parte do Estado.

 

Qual o significado dos últimos assassinatos no Norte do País?

O importante a destacar é que essas mortes não aconteceram porque aquelas pessoas queriam garantir um direito individual. Aconteceram porque elas estavam defendendo a floresta, consequentemente todos nós somos beneficiados por essa luta, mas há pouquíssima gente que valoriza isso.

 

Qual deveria ser papel do Estado nessa situação?

Quem tem que desencadear políticas concretas para investigar, condenar e proteger é o Estado. Mas o grande problema que existe é a questão da impunidade. Nos últimos 26 anos, dos 1.580 assassinatos no campo, só 91 casos foram julgados. Dos mandantes desses 1.580 assassinatos, há apenas um preso - e isso porque existe uma pressão internacional -, que foi um dos mandantes do assassinato da irmã Dorothy. Isso é uma situação que gera uma insegurança muito grande e um descrédito absoluto do papel do Judiciário. O Judiciário, quando é para criminalizar os movimentos sociais, é extremamente eficiente, mas quando é para julgar e condenar os culpados é omisso ou cúmplice com aqueles que cometeram os crimes.

 

O que esperar do grupo interministerial formado pelo governo para discutir o assunto?

Não dá para desconsiderar essa iniciativa. Até porque a presença do Estado nessas áreas de conflitos não pode ser a partir de um único ministério. Mas não é só uma questão de segurança ou de efetivo policial, você tem de exigir a presença do Estado e a efetivação de políticas públicas que vão às raízes dos problemas.

 

Em qual região há mais registros de conflitos no campo?

A amazônica. Isso acontece porque ainda é uma área de expansão das fronteiras agrícolas. Os empresários da terra que já desmataram São Paulo, Minas, Paraná, Rio Grande do Sul, agora estão indo para Rondônia, Tocantins, Pará, sul do Amazonas.

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