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O cqd triunfal de Bolsonaro

O presidente contaminado manteve o comportamento irracional que sempre teve com relação à covid-19

Rosângela Bittar, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2020 | 16h32

A euforia com que o presidente Jair Bolsonaro anunciou ter conseguido o atestado médico de contaminação pela covid-19 só foi superada pela revelação final de que ficou bom com duas doses da cloroquina que, “como queria demonstrar”, é o medicamento mais adequado e prodigioso para o tratamento da doença pandêmica. Não importa se a ciência e o mundo civilizado tenham provado o contrário, o que importa é tornar a propaganda mais eficiente para baixar os imensos estoques.

Ao longo dos últimos cinco meses, Bolsonaro procurou demonstrar que todas as teorias que haviam lhe rendido protestos, críticas e o título de pior líder mundial no combate à pandemia estavam corretas. Ele condenou tudo o que a ciência recomendou e fez uma bula homicida, agravada por ser da lavra de um presidente da República que serve de mau exemplo; condenou o isolamento social, quis o fim da quarentena com a abertura do comércio, vetou o uso de máscaras e evitou usá-las, incentivou a aglomerações, buscou a própria contaminação e levou risco aos próximos.

O presidente brasileiro submeteu os ouvidos da nação a considerações absurdas, como a que atletas são resistentes ao vírus e brasileiros não se contagiam facilmente porque estão acostumados a mergulhar no esgoto. Não foram poucas as escandalosas interferências, na marra, para impor sua vontade, entre elas a demissão de dois ministros da Saúde médicos que ousaram contestar sua conduta leiga.

Aprendeu-se com Bolsonaro que, como todos vão morrer, um dia, não tem importância morrer agora, desde que esteja aberto o salão de beleza. Conseguiu o que sempre quis, o que procurou ao andar à beira do abismo, incluir-se no rebanho da contaminação ampla por desobediência às regras sanitárias. 

Recusando a autoria da devastação do Brasil, Bolsonaro, ontem, covardemente, eximiu-se mais uma vez de responsabilidade pela crise sanitária avassaladora insistindo que as atribuições de combate à doença são exclusivas de Estados e Municípios.

Os últimos dias foram pródigos em transgressões: fez inauguração, viajou a Estados, reuniu-se com empresários, encontrou políticos, recebeu ministros, sempre sem proteção. Porém, a irresponsabilidade de Bolsonaro e a personalidade subserviente dos ministros e auxiliares atingiu o paroxismo no sábado, dia 4, data nacional dos Estados Unidos.

Uma foto do almoço na residência do embaixador Todd Chapman revela Bolsonaro abraçado ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ladeado pelos generais Fernando Azevedo (Defesa), Braga Netto (Casa Civil) Luiz Eduardo Ramos (secretário de governo) no almoço da embaixada americana, em Brasília. Todos sem máscara.

Duvida-se que a cena, emblemática por todos os seus aspectos, tenha ocorrido na embaixada dos Estados Unidos no Japão, na Índia ou na Alemanha. Ou que, no 7 de setembro, Donald Trump compareça à embaixada brasileira com seu staff de guerra para erguer uma taça de caipirinha.

O presidente contaminado manteve o comportamento irracional que sempre teve com relação à covid-19, enquanto se mantém elevado também o número de mortes diárias pela doença.

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