Hélvio Romero/ Estadão
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O clima pesou

Enchentes são outra mostra de que emergência climática não é para ‘daqui a 500 anos

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2020 | 03h00

Quem esteve no Fórum Econômico Mundial, em Davos, em janeiro, sentiu que, no intervalo de apenas um ano, a preocupação com a emergência climática e as formas de retardá-la deixaram de ser uma pauta lateral para se tornar uma das prioridades de países e investidores.

No mesmo intervalo de tempo, o governo Jair Bolsonaro deixou de ser uma incógnita em relação à qual havia grande desconfiança, graças às demonstrações de desapreço pela questão ambiental, para se tornar uma certeza de ameaça aos esforços globais para mitigar os efeitos do aquecimento.

Não foi por acaso que até Bolsonaro sentiu que o clima já tinha esquentado e designou uma comissão, liderada pelo vice Hamilton Mourão, para intervir na gestão ambiental da Amazônia.

Se faltavam evidências, ainda assim, de quão atrasados estamos em entender o que a ciência já demonstrou a respeito das consequências da emergência climática, as chuvas violentas que castigaram grandes capitais do Sudeste neste verão vieram completar o álbum.

Ricardo Salles – ainda hoje ministro do Meio Ambiente, embora manietado pela intervenção em sua pasta –, chegou a dizer, quando ainda ostentava o discurso negacionista que agora tenta mitigar, que a preocupação com o clima era algo para “daqui a 500 anos”. Algumas declarações se tornam históricas pela sua clarividência. Outras viram memes pelo seu histrionismo. Esta certamente não se enquadra no primeiro grupo.

Enquanto carros boiavam nas principais avenidas de São Paulo e paulistanos iam trabalhar de bote inflável ou trator, as autoridades municipais se reuniam numa espécie de missa macabra na Prefeitura, convocada às pressas pelo prefeito Bruno Covas, para, visivelmente atônitas, dizer que choveu demais e tudo poderia ser pior se não fosse o bom trabalho da gestão municipal.

Repetiu a linha de argumentação, com uma arrogância e agressividade totalmente fora do tom para alguém que deveria pedir desculpas à população por um dia de caos e barbárie, no dia seguinte em entrevistas ao rádio e à TV.

É evidente que sucessivas gestões, e não apenas a Doria-Covas, falharam em planejar obras para escoar as chuvas, subestimaram o efeito das mudanças no clima e abusaram do direito de encher a cidade de concreto, tornando-a impermeável. Foram, além de tudo, omissas quanto ao adensamento de encostas e áreas de manancial, que ficam mais vulneráveis em ocasiões em que de fato o índice pluviométrico sobe – e ele vem subindo nos últimos anos, e continuará a subir, ninguém pode alegar que os cientistas têm ficado roucos de tanto alardear isso, sendo chamados de histéricos por políticos preguiçosos, presunçosos ou ambos.

Bolsonaro foi eleito e governa com base num discurso que trata ciência como inimiga e promove crendices, interesses de aliados, fake news e ideologia barata a políticas de Estado. No reino de Salles, essa fórmula levou ao desmonte de todo o arcabouço de fiscalização de abusos e crimes ambientais. 

Para completar o desastre, Estados e municípios, com governos das mais diferentes vertentes políticas, repetem o descaso com meio ambiente e clima que destrói biomas como a Amazônia também nos grandes centros urbanos.

A preservação ambiental e os esforços para retardar o aquecimento não são coisa de “comunista” ou de “pirralhas”. Trata-se da grande preocupação global hoje. Aquilo que, no fim do dia, será um dos principais fatores para definir se um país será digno de integrar fóruns e organismos multilaterais e receber investimentos ou se será considerado um pária aos olhos do resto do mundo e merecedor de retaliações e boicotes para negócios e acordos. Por enquanto estamos avançando em desabalada carreira para ficar no segundo bloco.

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