O caso do mágico com a virgem

A possível relação de amizade entre a virgem Maria Rosa com o capitão Matos Costa produziu uma série de músicas e histórias na região

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 18h00

A morte do capitão de Matos Costa num ataque de rebeldes, em 6 de setembro de 1914, marcou a entrada na guerra do general Fernando Setembrino de Carvalho, chefe da última campanha militar. À véspera da morte de Matos Costa, os rebeldes tinham incendiado a estação de trem e a serraria e o depósito de madeira da Lumber no vilarejo de Calmon, e a estação de Nova Galícia, mais adiante, em Porto União.

 

 

À época responsável em resolver o conflito no Contestado, Matos Costa foi chamado para dispersar rebeldes que tinham tomado as margens da ferrovia na altura de São João dos Pobres, hoje município de Matos Costa. Ele chegou ao local numa locomotiva. Após sair do trem, ele e um grupo de 42 homens caminharam pelos trilhos quando foram surpreendidos pelos rebeldes, que saíam do mato em quantidade. O corpo do capitão foi encontrado cinco dias depois perto de um lago. Cerca de 300 rebeldes estavam na área naqueles dias. Os homens que mataram o militar recebiam ordens de Francisco Alonso de Souza, o Chiquinho Alonso, de 16 anos.

 

A morte de Matos Costa causou comoção no Paraná e no Contestado. Veterano da guerra de Canudos, o militar apresentou a chefes do Exército, no Rio de Janeiro, uma série de argumentos para não repetir no Sul o massacre ocorrido no sertão da Bahia, em 1897. No Contestado, ele se vestia de "mágico", uma espécie de benzedor, para se aproximar dos rebeldes. Era um pioneiro do serviço de inteligência do Exército. Suas práticas seriam utilizadas pelos militares nos trabalhos de espionagem nas áreas de guerrilha no meio rural.

 

Após o combate com Matos Costa, um dos homens de frente do grupo rebelde, Venuto Baiano foi atacado e morto por companheiros do movimento. Dois colegas lhe tiraram as armas e o obrigaram a caminhar para a mata. Foi fuzilado de frente. O pesquisador Maurício Vinhas de Queiroz, no trabalho "Messianismo e Conflito Social", publicado em 1966, afirma que o motivo mais provável para a morte de Venuto Baiano foi uma "forte rivalidade" entre chefes do grupo rebelde. Vinhas comenta ainda a versão de que o rebelde foi morto por ter assassinado Matos Costa, a quem as "virgens" não tinham condenado à pena de morte.

 

Essa versão, que para Vinhas não existe "base", predomina na história oral do Contestado. Nos depoimentos, agricultores afirmam que Venuto Baiano foi morto por ordem da virgem Maria Rosa, de 16 anos, a líder espiritual e, naquele momento, política dos rebeldes. A possível relação de amizade entre Maria Rosa com Matos Costa produziu uma série de músicas e histórias na região. Vinhas afirma que não existe "base" para dizer que Maria Rosa mandou matar Baiano. O pesquisador, no entanto, ressalta que é possível que Matos Costa tenha contado com a "boa vontade" da virgem. Vinhas registra que o capitão, para entrar no reduto Bom Sossego, chefiado por Maria Rosa, raspou o cabelo e usou um chapéu com fita branca, se passando por "mágico", rezador.

 

O pesquisador Paulo Pinheiro Machado no livro "Lideranças do Contestado", de 2004, escreve que "consta" um encontro entre Maria Rosa e Matos Costa. Machado observa ainda que a atitude conciliadora da virgem com o Exército foi reprovada pelo chefe rebelde Elias de Moraes, uma espécie de rei dos rebeldes, que mandou Chiquinho Alonso atacar o capitão. A partir da morte de Matos Costa e de Venuto Baiano, Maria Rosa perdeu força e foi destituída da função de comandante-geral, que acabou sendo tomada por Chiquinho Alonso.

 

Conspiração. Além do caso do mágico e da virgem consta também a história de conspiração. O paranaense Pedro Ferreira de Alcântara, 48 anos na época, agente postal em Canoinhas, foi acusado de apoiar os rebeldes. No dia 23 de novembro de 1914, ele teve de prestar esclarecimentos ao Exército. A denúncia contra o agente postal partiu do soldado Antonio Bernardino, 21 anos.

 

Ao Exército, Bernardino disse ter visto o agente fazer sinais luminosos à noite para os rebeldes. "Por diversas vezes tem visto o referido funcionário, justamente nas noites de combate, aparecer em uma janela existente no alto de sua morada e fazendo aparecer e desaparecer sucessiva e repetidamente uma luz, levá-la para a direita, para a esquerda, para a frente, para as retaguardas respectivamente. O grosso do tiroteio vem da direita, da esquerda, da frente, da retaguarda", registra o relatório do depoimento do soldado. "Sobre o procedimento do funcionário diante do cadáver de Francisco Padilha, ouviu dizer que disse essa frase: "Antes tivessem morrido vinte soldados que esse homem"."

 

No depoimento de esclarecimento, Alcântara afirmou tratar-se de calúnias. O relatório dos militares registra a resposta do paranaense. "A respeito de supostas confabulações com indivíduos suspeitos de serem fanáticos, diz serem calúnias, cuja origem mesmo não sabe, a que atribui visto ser conhecido nesta vila há quatro anos, tendo neste período estado sempre ao lado da legalidade e continua a possuir toda estima e consideração das autoridades, negociantes e demais pessoas idôneas desta localidade.

 

Perguntado se é verdadeiro o fato de acender luz no sótão de sua casa e com elas fazer sinais aos fanáticos todas as vezes que os mesmos atacam esta vila, respondeu que dormindo no pavimento superior de sua residência é forçado a não somente manter nessa, durante certas horas da noite, a luz acesa como também a acendê-la todas as vezes que tem necessidade de descer ao pavimento térreo, especialmente nos dias de tiroteio que por precaução muda o seu dormitório para este último. Quanto ao seu procedimento junto ao cadáver do fanático Domingos Padilha, morto no combate do dia 21, respondeu que não podia ter procedimento possível de censura, pois que nem sequer viu o cadáver aludido, nem mesmo conhece como ex-morador desta villa."

 

Tudo o que sabemos sobre:
Contestado

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.