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O campo da batalha

Haverá um lugar mais decisivo do que os outros na eleição presidencial? A pergunta parece idiota, já que cada Estado e cada região tem um peso eleitoral conhecido. Em 2010, o Sudeste deu 44% dos votos válidos para presidente, e o Nordeste, 26%. Mas a geografia do voto muda parcialmente de eleição para eleição. E avançar no terreno do adversário é sempre o menor atalho para vencer ou garantir o segundo turno.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2014 | 02h01

Desde 2006 que o PT conquistou e mantém seu principal reduto eleitoral no Nordeste - graças às políticas assistenciais e ao crescimento acima da média da renda e da economia da região. Quando se elegeu em 2010, Dilma Rousseff obteve 55% dos votos totais dos nordestinos. Não é acaso, portanto, que ela apareça com os mesmos 55% no Nordeste na mais recente pesquisa Ibope. Se a presidente está dentro das expectativas, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) estão abaixo do que seus correligionários conseguiram no Nordeste quatro anos atrás. Mesmo sendo pernambucano, Eduardo tem 11% onde Marina Silva chegou a 14%. É uma diferença pequena, que pode desaparecer ao longo do horário eleitoral. O desafio é bem maior para Aécio.

O candidato do PSDB está com apenas 9% das intenções de voto no eleitorado nordestino. Na eleição passada, o tucano José Serra bateu em 19% dos votos totais na região. Para alcançar essa taxa, Aécio precisaria converter a maioria dos nordestinos que hoje estão indecisos (8%) e aqueles que dizem que vão votar branco ou anular (11%). É improvável, porque esses 11% já são iguais à taxa de votos nulos/brancos de 2010.

Aécio vai disputar com Eduardo os 8% de indecisos do Nordeste, mas mesmo que consiga ficar com metade deles, ainda estará longe da performance de Serra na região. Para equipará-la, resta avançar sobre os eleitores que declaram voto nos nanicos (7%) ou em Dilma. É mais difícil do que convencer indecisos. Por isso, a maior esperança de Aécio é o Sudeste. Além de ser a mais populosa, é a única região onde o tucano tem crescimento contínuo. Saiu de 18% em março para 28% em julho, sem recuar em nenhuma pesquisa Ibope. O mineiro já está bem perto dos 32% dos votos totais alcançados por Serra na região em 2010. Ao mesmo tempo, Dilma está devendo no Sudeste.

A presidente obteve 37% dos votos totais da região em 2010. Nesta campanha, seu teto ali tem sido mais baixo: obteve 32% no último Ibope, e seu melhor resultado desde março foi 34%. O problema de Dilma no Sudeste é a má avaliação do seu governo. Sua desaprovação chegou a 59% em julho; sua rejeição, a 42%. Tudo isso torna menos provável que ela seduza a maioria dos 27% de eleitores sem candidato que ainda existe no Sudeste.

Esse é um fenômeno atípico. Em 2010, apenas 8% dos eleitores do Sudeste anularam ou votaram em branco para presidente. Este ano, mais do que o dobro (19%) declara intenção de fazê-lo. Se não tivessem havido os protestos em massa, a tendência seria essa taxa cair ao longo da campanha e se aproximar das médias históricas. Caberá aos candidatos da oposição convencer esses eleitores de que são melhor opção do que o nada.

Caso contrário, Dilma ganha mesmo sem crescer na região. Como para efeito eleitoral só contam os votos dados a candidatos, os 32% da petista equivalem, hoje, a 44% dos votos válidos. É mais do que os 41% que ela conseguiu em 2010. Isso aumentaria suas chances de eleger-se no primeiro turno.

Por isso, há um campo onde a batalha presidencial será ainda mais renhida do que nos demais: a disputa pelos eleitores indecisos e insatisfeitos do Sudeste. Mas ela varia de Estado para Estado. A batalha será mais intensa onde é maior o eleitorado sem candidato: 35% no Rio de Janeiro e 31% em São Paulo, contra "apenas" 20% em Minas Gerais.

Em números absolutos, os 31% de paulistas representam cerca de 4,5 milhões de eleitores a mais do que os 35% de fluminenses. Nunca São Paulo pesou tanto numa eleição para presidente.

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