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O buraco cavado e a queda

Qui fodet foveam incidit in eam. Tradução: quem cava um buraco acaba caindo nele. Este é antiquíssimo ditado latino, aparentemente baseado numa passagem do livro dos Provérbios (26, 27). A presidente Dilma devia tê-lo levado em conta e ter entendido que, não fosse a condução desastrada da política econômica, o impeachment não teria acontecido.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 05h00

O buraco em que despencou começou a ser cavado em 2011, quando ignorou séculos de Ciência Econômica e pretendeu criar quase do nada sua política econômica. Baseou-se em leituras apressadas de Keynes que recomendavam a adoção de um modelo anticíclico para enfrentar a crise com aumento de despesas e disparada do consumo sem, no entanto, cuidar das finanças públicas.

A Nova Matriz Macroeconômica, batizada pelo então ministro da Fazenda, Guido Mantega, apoiava-se em intervenções estapafúrdias. Começou por exigir que concessionárias de energia elétrica derrubassem suas tarifas como condição para renovação de contratos. Os resultados foram rombos em cadeia que tiveram de ser repassados para o consumidor.

Nessa política artificial, represou preços e tarifas da energia elétrica, dos combustíveis, da telefonia e de transportes urbanos.

Obrigou o Banco Central a ignorar o regime de metas de inflação e a derrubar os juros básicos a partir de agosto de 2011. Assim, destroçada a âncora monetária, e sem contar com a âncora fiscal, a inflação disparou.

Para tentar compensar os estragos que começaram a minar seus planos eleitorais, o governo aumentou ainda mais as despesas, distribuiu isenções tributárias e desonerações. A renúncia fiscal chegou a R$ 290 bilhões por ano (24% da arrecadação de 2015).

Como a meta fiscal foi para o espaço, o governo Dilma apelou a práticas proibidas pela Lei de Responsabilidade Fiscal, as tais pedaladas, por meio das quais os bancos estatais socorreram o Tesouro sem a devida autorização do Congresso.

A inalação do narcótico produziu a euforia que reconduziu a presidente Dilma à Presidência. Mas, depois de passar a campanha denunciando a proposta da oposição para a economia como tudo de ruim, adotou o receituário ortodoxo, o que semeou decepção entre seus eleitores.

A partir daí a crise econômica se misturou à crise política. E veio o que já se sabe: recessão de cerca de 8% em dois anos (2015 e 2016); inflação acima de 10% em 12 meses; desemprego na casa dos dois dígitos; indústria arrasada e Petrobrás desmantelada. Em março, a aprovação do governo Dilma não passava de 10%.

Desta vez, não houve quem a tirasse do buracão que ela mesma cavou.

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