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Eliane Cantanhêde
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O Brasil em chamas

Bolsonaro e queimadas atraíram o mundo a favor da Amazônia e contra o Brasil

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2019 | 03h00

Os incêndios na Amazônia e o incendiário Jair Bolsonaro conseguiram atrair a ira do mundo para o Brasil. O desmatamento e as queimadas, que evoluem juntos e extrapolam a Amazônia, atingem vários Estados, saem da área rural, afetam cidades e se transformam numa crise internacional.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, se disse “profundamente preocupado”. O presidente da França, Emmanuel Macron, quer convocar o G-7, que reúne as maiores economias do mundo, para reagir. E astros como Gisele Bündchen e Leonardo DiCaprio potencializam a repercussão. O Brasil está isolado.

Enquanto isso... o presidente Bolsonaro, seus ministros e principais colaboradores resumem as árvores derrubadas, as labaredas nas florestas, a fumaça que intoxica e as reações pelo mundo afora como uma mera, mesquinha, questão política e ideológica.

Não se ouviu uma única frase, uma única palavra do presidente lamentando a devastação, tomando providências, agindo para resolver o aumento do desmatamento e as queimadas que assolam uma área imensa do País. Tudo o que ele fez, até agora, foi desqualificar a medição das áreas desmatadas, demitir o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, e tentar adivinhar quem são os culpados: as ONGs!

Assim como os “governadores paraíba” do Nordeste são inimigos e devem ser tratados a pão e água, os do Norte e do Centro-Oeste agora são suspeitos de “conivência” (termo usado pelo presidente) com as queimadas. Sim, senhores e senhoras, ambientalistas torram o ambiente para retaliar o presidente e os governadores fecham os olhos, prazerosamente. Poderia ser apenas uma acusação patética, não fosse algo muito próximo de injúria e difamação. Que provas o presidente tem para falar algo de tal gravidade contra ONGs e governadores?

Esse discurso belicoso, audacioso, é com base na convicção pessoal do presidente de que as ONGs são braços da esquerda internacional e dos países europeus para controlar a Amazônia e criar condições para, mais adiante, se apossarem dela. Quem passar por gabinetes da Esplanada dos Ministérios vai ouvir que as ONGs embebedam os índios, exploram as reservas, dão guarida a quadrilhas que agem na região, são mancomunadas com madeireiras ilegais e garimpeiros clandestinos.

Logo, é uma guerra. Assim, não há nenhuma surpresa na vaia uníssona que recepcionou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, na Semana do Clima na Bahia – um evento, aliás, que Salles tentou cancelar e depois voltou atrás. Diante do escândalo das queimadas, lê-se que o ministro agora quer criar uma força-tarefa com ONGs, madeireiras e mineradoras para combater as chamas atuais e prevenir novas.

Só não podem contar com os dois mais fiéis e antigos parceiros do Brasil na defesa do ambiente, a Alemanha e a Noruega, que foram escorraçadas por Bolsonaro e cortaram quase R$ 300 milhões de contribuição para o Fundo da Amazônia. Os dois, aliás, são, ou vinham sendo, os únicos financiadores do programa de... prevenção de incêndios na região!

Assim, o cerco vai se fechando não contra o governo brasileiro, mas contra o Brasil, depois que o presidente decidiu bater de frente com China, mundo árabe, França, Alemanha, Noruega e Suécia, no rastro de sua ira ideológica contra Inpe, Ancine, ICMBio, IBGE, Fiocruz, Ibama, PF, Receita, Coaf, universidades e, claro, imprensa. Aliás, de quem é a culpa do derretimento da imagem do Brasil no exterior? Para o presidente, é da imprensa!

Sinuca. Bolsonaro estabeleceu um padrão para demitir, pela imprensa ou pelas redes sociais. A bola da vez é o delegado Maurício Valeixo, o Eduardo Villas Boas da PF. O líder e referência da instituição.

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