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O barco a vagar

As grandes confusões do governo - a condução da economia e a crise na Petrobrás - podem até se constituir nas maiores e mais visíveis, mas não são as únicas fontes de aflição que disseminam uma sensação de desgoverno entre os partidos aliados no Congresso.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2014 | 02h02

Há desconforto, extensivo a ministros, com a permanência das maneiras retraídas (para dizer de modo ameno) da presidente Dilma Rousseff, na desorganização da área política na relação com o Parlamento, na tomada de medidas irrelevantes, atos erráticos e na ausência de posição mais contundente em relação às denúncias que já atingem o atual quadro da Petrobrás.

Tomemos a CPI mista sobre os negócios nebulosos da estatal. Com a ajuda de parlamentares governistas a oposição conseguiu aprovar a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e mais uma série de convocações que vinham sendo evitadas. Não porque o governo tenha finalmente concordado em desobstruir as investigações, mas porque perdeu o poder de mando na execução da operação abafa.

Nada disso dará mais celeridade e consistência ao que aos trabalhos da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça. Serve, contudo, para dar visibilidade ao ambiente de bate cabeça que se instalou na base governista.

O "barata-voa" na CPI aconteceu na terça-feira. No mesmo dia, tarde da noite, o governo conseguiu aprovar na Comissão de Orçamento do Senado o projeto que anula a atual meta do superávit fiscal. Ganhou no grito, numa sessão tão vergonhosamente tumultuada e manipulada que a situação concordou em anulá-la para realizar nova votação ontem. Sem contar que a Casa Civil havia se atrapalhado com o pedido de urgência regimental.

A mesma Casa Civil que não dera atenção ao alerta do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Dias Toffoli, para o fim mandato do juiz responsável pelo exame das contas de campanha da presidente Dilma e depois reclamou da redistribuição do processo porque o escolhido por sorteio foi Gilmar Mendes, considerado um inimigo do Planalto.

Para fechar o ciclo fica a dúvida a respeito da utilidade que tiveram, afinal, as cartas de demissão pedidas aos ministros com pompa de Estado pelo chefe daquela repartição, Aloizio Mercadante.

Lote de peso. Ainda antes da posse em seu primeiro mandato, Dilma Rousseff pediu a dois figurões do PMDB que se reunissem com Paulo Roberto Costa a fim de conversar sobre reforço na sustentação política (originalmente apenas do PP) na diretoria de Abastecimento da Petrobrás.

Na cúpula do partido a história do encontro é conhecida e contada como exemplo de que a presidente não esteve afastada dos acertos de loteamento partidário na estatal como quer fazer crer. Embora não se tenha conhecimento de atos irregulares, no contexto atual em que qualquer contato com Paulo Roberto sugere suspeição, os referidos pemedebistas andam apreensivos de que seus nomes venham a ser citados.

Até porque se encontram sentados nos primeiros escalões do partido e do Planalto.

Fundo do baú. Caso o ex-governador da Bahia, Jaques Wagner, seja nomeado presidente da Petrobrás, estará ocupando o cargo que ambicionava desde a primeira eleição de Lula, em 2002. Na ocasião avaliava que seria o trampolim ideal para se eleger governador.

Acabou indo para o Ministério - primeiro do Trabalho e depois à frente do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social - e chegando ao governo da Bahia em 2006. Na ocasião o comando da Petrobrás ficou com José Eduardo Dutra.

Cotado para presidir o PT, Dutra declinou da oferta e a tarefa ficou com José Genoino, para quem a história não reservou por isso um bom destino.

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