'O avião do Campos caiu na minha casa'

Morador de imóvel atingido pelo acidente conta como o suposto helicóptero de um empresário local 'se transformou' no jato do candidato ao Planalto

BRUNO RIBEIRO / SANTOS, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2014 | 02h01

"O telefone tocou no meio da manhã", começa a contar o servidor público André Luiz Saboia, de 46 anos, morador da Rua Vahia de Abreu, no Boqueirão, em Santos, ao falar sobre a tragédia ocorrida no seu bairro na quarta-feira. "Era minha mulher falando para eu vir rápido porque tinha caído um helicóptero no fundo de casa." Na verdade, ele viria a saber depois, era o jato particular que levava o candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos, quatro assessores de campanha e dois pilotos. Nenhum dos sete ocupantes do avião sobreviveu à queda.

A mensagem da mulher fez gelar o funcionário da Secretaria de Habitação de São Vicente, cidade que divide a maior ilha da Baixada Santista com Santos. Saboia estava em seu gabinete naquela hora. "Como eu falei com ela (Zuleika) e sabia que ela estava viva, não tinha se machucado, a tensão não foi maior. Mesmo assim, saí correndo", relata o servidor público.

Apreensivo, depois de entrar em seu carro, Saboia não chegou nem a ligar o rádio para ouvir as notícias sobre o acidente. Ele não soube precisar o tempo que durou o trajeto de São Vicente até o Canal 3 de Santos. Em dias comuns, quando presta atenção nas coisas, diz que faz esse mesmo trajeto em cerca de 20 minutos.

"Quando eu cheguei, já estava todo mundo aqui, resgate, polícia. Minha mulher estava na rua. Estavam falando que era o helicóptero do Comeri", disse, referindo-se a um conhecido empresário da cidade, dono de uma revendedora de automóveis de luxo.

Vidros quebrados. O servidor público nasceu em Santos. Faz cinco anos que Saboia e a mulher vivem naquela casa, um sobrado branco, com um largo corredor à esquerda da entrada, numeração em um letreiro de porcelana, muros altos e cerca elétrica, com uma edícula ao fundo. "Demorou um tempo para eu poder entrar em casa. Para mim, ela tinha ficado inteira destruída", diz o funcionário.

De fato, até os vidros da frente do imóvel tinham se quebrado. No interior da casa, lustres estavam caídos. Pelo corredor, havia entulhos de alvenaria, vidro sabe-se lá de onde, ferro retorcido pintado de branco, supostamente pedaços do Cessna Citation 560 XL usado por Eduardo Campos. Saboia relata ter a impressão de que uma das asas do Cessna entrou na edícula.

Também passou bastante tempo até o servidor público entender tudo aquilo. Saboia não conseguiu ser exato ao descrever como o então helicóptero de um empresário conhecido de Santos virou o jato particular de um candidato à Presidência e ex-governador pernambucano. "Alguém falou depois. Mas isso foi quando já estava cheio de policiais, gente na rua. O que caiu na minha casa era o avião do Eduardo Campos."

Fogo e fumaça. A Vahia de Abreu, assim como a perpendicular Alexandre Herculano, é uma rua plana, bem arborizada. As casas se intercalam com dois prédios mais altos. Nas duas esquinas, há imóveis comerciais: uma imobiliária, uma loja de locação de itens para festas e dois restaurantes. Cenário totalmente alterado pelo acidente.

"Tinha muita fumaça na hora, correria. Ainda estava pegando fogo, tinha cheiro forte de querosene", descreve Saboia, ao relatar a transformação do lugar. "Minha mulher falou que o pessoal ficava gritando, mandando ficar longe porque podia explodir."

O fogo só foi extinto depois de duas horas. Foi quando ele pôde entrar em casa com mais calma para avaliar a situação. Saboia desconversa quando perguntado sobre eventuais restos mortais em sua residência.

O avião caiu no centro do quarteirão, onde se concentravam os quintais das residências. Mesmo assim, 15 imóveis foram atingidos por destroços da aeronave. Três foram interditados pela Defesa Civil, embora a polícia tenha restringido o acesso a dez deles. Uma das paredes da casa de Saboia fica bem ao lado da cratera. Ainda assim, ele nem sequer teve de deixar o imóvel. Teve mais sorte que seus vizinhos que foram obrigados a ir para a casa de amigos.

Passado o susto, o servidor viu que, da janela de sua edícula, tinha-se o melhor ângulo de visão para o local da tragédia. Os fotógrafos e cinegrafistas que foram cobrir a queda do avião também perceberam. Gentilmente, Saboia permitiu que todos entrassem na casa, ainda com os estilhaços.

"Vou pedir para os bombeiros ou para a Aeronáutica retirarem isso, levar para analisar", afirmou, referindo-se ao pedaço metálico que ficou parado na frente do carro de sua mulher. Até a noite de sexta-feira, a peça permanecia intocada, diante do automóvel.

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