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O atropelamento das ideias

Partidarizar toda e qualquer ideia equivale a classificar, obrigatoriamente, cada proposta, programa ou pessoa como petista ou antipetista. É um jeito fácil de simplificar o mundo, mas transforma debate em bate-boca, sufoca a argumentação sob o coro das torcidas e desintegra a sociedade ao dividi-la em guetos. Além de tudo, é suicida, pois inviabiliza os próprios partidos.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2015 | 02h01

Nunca, desde o fim da ditadura militar, tão poucos brasileiros se identificaram com uma agremiação partidária. O Datafolha mostrou que 3 a cada 4 não têm, hoje, simpatia ou preferência por qualquer partido. E não é por falta de opção: nunca houve tantas siglas partidárias no Brasil. Para 75% dos brasileiros, os 32 partidos cheiram igual - e, embora rime, não é a perfume.

Grande parte dessa aversão se deve ao PT, que, após a recessão e a Lava Jato, despencou da preferência de um terço dos eleitores para a vala comum das demais agremiações, todas com apenas um dígito de simpatizantes. Tucanos e peemedebistas podem comemorar a anemia petista, mas não têm nada para mostrar a seu favor. Não ganharam nenhum ponto de simpatia com a desgraça do concorrente.

Nem parecem preocupados com isso. A política, para caciques do PSDB, do PMDB e - sob Dilma Rousseff - também do PT, se resume a Brasília. Não por acaso, são sempre surpreendidos pelas ruas e têm extremo cuidado - para não dizer temor - ao pisá-las.

A perda de prestígio dos partidos é só um dos sintomas. Todas as instituições democráticas têm dificuldades para passar pelas narinas da população. O Executivo raramente foi tão mal avaliado. E a impopularidade não é apenas o governo federal. Governadores e prefeitos também sofrem tendência de baixa.

Os novos deputados e senadores mal tomaram posse, mas metade dos brasileiros já acha que eles são ruins ou péssimos em seus mandatos. Apenas 9% acham que fazem um trabalho bom ou ótimo, segundo a mesma pesquisa Datafolha que deu 62% de ruim/péssimo para o governo Dilma, contra só 13% de opiniões positivas.

Pesquisa de opinião feita em 2014 pelo Barômetro das Américas, da Universidade Vanderbilt (EUA), concluiu que apenas 38% dos brasileiros confiam no sistema judicial nacional, uma das cinco taxas de confiança mais baixas entre 25 países do continente. Menor do que as dos EUA, Canadá, México, Argentina e até Haiti.

Um gráfico da mesma pesquisa causou algum furor na semana passada nas redes sociais. Ele mostra que 48% dos brasileiros acham um golpe militar justificável diante de muita corrupção. É o dobro do que no Chile e dois terços mais do que na Argentina e no Uruguai. É preocupante, mas menos extraordinário se tomarmos os EUA como base. Lá, um terço concorda com a tese golpista.

Tudo isso se resume em uma ideia, cada vez mais frequente e popular entre os brasileiros: o sistema político não funciona. Isso ficou muito claro nas manifestações de 2013, mas sempre é bom colocar as coisas em perspectiva e comparar com outros países. O apoio ao sistema político no Brasil é o mais baixo do continente: 38%. Perde até para a dividida Venezuela (42%). Toma de goleada da Costa Rica (62%), Canadá (60%) e Argentina (55%).

Pode-se constatar isso tanto na pesquisa do Barômetro das Américas quanto, de forma mais prosaica, na discussão sobre as ciclovias paulistanas. Só a partidarização irracional das ideias é capaz de tratar uma tendência global, que vai de Paris a Nova York com escala em Londres, como "coisa de petista". Ainda mais quando duas das maiores ciclovias de São Paulo foram construídas pelo governo tucano, nas margens dos Rios Pinheiros e Tietê.

Antecipando a disputa de 2016, demoniza-se uma ideia porque ela pode - talvez - ajudar o prefeito do PT a se reeleger. Assim, todo ciclista é tratado como petista e, por oposição, todo motorista vira um antipetista. Vai acabar em atropelamento.

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