O anticlímax da reação ao discurso de estreia de Levy

ANÁLISE: Irany Tereza

O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2014 | 02h01

"A autonomia está dada." A frase de impacto do ministro indicado da Fazenda, Joaquim Levy, talvez tenha sido a mais importante de sua primeira entrevista coletiva. Poderia ter surtido efeito melhor.

Afinal, a dúvida recorrente dos agentes econômicos e financeiros é se ele e sua equipe terão liberdade e autonomia em relação ao Palácio do Planalto para mudar a rota da proposta econômica do governo.

Levy deu seu recado: trazer para um padrão crível a meta de superávit primário, dar prioridade à elevação da taxa de poupança e elevar a competitividade brasileira. Embora tenha apenas pincelado seus objetivos, o novo ministro apontou para um ano de arrocho em 2015. Então, por que seu breve pronunciamento não conseguiu produzir um efeito positivo no mercado financeiro? Ao mesmo tempo em que representantes dos mais variados setores econômicos apressavam-se em tecer elogios à equipe do segundo mandato de Dilma Rousseff, a reação da Bolsa de Valores de São Paulo foi de queda.

As ações da Petrobrás, uma espécie de termômetro do acompanhamento do mercado aos atos econômicos do governo, chegaram a registrar queda de 5%, variação muito brusca. O que os investidores - e também os especuladores - viram de tão negativo nas declarações de Levy?

É certo que não dava para elevar as negociações acionárias aos píncaros num dia em que o preço internacional do petróleo caiu um pouco mais diante da decisão da Opep de manter inalterada a produção de petróleo. Mas o otimismo demonstrado nos últimos dias com a indicação cada vez mais firme de Levy fez da reação de ontem um anticlímax.

"Vamos ver no dia a dia como a autonomia ocorre", reconheceu o futuro ministro na mesma entrevista, numa visão mais realista sobre o que poderá fazer no comando da equipe econômica do governo. Os setores produtivo e financeiro parecem ainda ter muitas dúvidas se a manobra a ser executada por ele será mesmo um "cavalo de pau", uma guinada em direção a uma austeridade maior do governo, ou apenas uma virada leve no volante para permanecer na mesma direção.

Guido Mantega, que continua ministro da Fazenda, não prestigiou a apresentação do sucessor. Também causou certa estranheza a ausência da presidente Dilma Rousseff, representada pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social, Thomas Traumann. Dilma marcou uma aparição pública de última hora na noite de ontem, talvez para ter a oportunidade de elogiar sua nova equipe.

A cerimônia dos novos ministros foi cercada de cuidados para evitar que eles fossem metralhados por perguntas - foram permitidas apenas seis questões, por jornalistas escolhidos previamente por sorteio entre os veículos de comunicação presentes. Antes, os rumores no governo davam conta de que a equipe seria anunciada e imediatamente após essa confirmação apresentaria um forte pacote fiscal.

Ontem, Levy disse que não há ainda nenhuma medida para ser anunciada e comentou que as mudanças serão graduais. Conclamou o Congresso Nacional - que está em plena queda de braço com o Executivo, na disputa por espaços no novo governo - a colaborar na aprovação de medidas setoriais de microeconomia. Tentou manter-se firme no propósito de ajustar a economia, mas foi extremamente econômico nos detalhes.

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