'Nunca recebi orientação de fazer contrato', diz empresário

Sócio de agência de publicidade que prestou serviços para estatal relata seu contato com o ex-diretor Paulo Roberto Costa

Fábio Fabrini, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2014 | 14h31

O empresário Ricardo Vilani, sócio da Muranno Brasil, diz que conseguiu receber dívida da Petrobrás após ser procurado pela estatal na época da CPI de 2009, que investigava irregularidades na área de comunicação. Ele conta que sua empresa trabalhou com ações de marketing, mas sem vínculo formal. "Nunca recebi orientação de fazer um contrato. Para mim, sempre foi normal", comentou.

Segundo Vilani, após audiência com o então diretor Paulo Roberto Costa, o doleiro Alberto Youssef, o "Primo", o procurou para pagar cerca de R$ 3,5 milhões. Ele nega que tenha ameaçado denunciar corrupção na estatal para receber a quantia, como declarou o doleiro em depoimento à Polícia Federal. "Denunciar o quê?", questiona.

Como foi a cobrança da dívida?

Quando eu vi que não andava, comecei a tentar falar com o Paulo Roberto. (...) Consegui, depois de um tempo, ser recebido por ele. Passou um tempo, nada acontecia, até que, um dia, toca meu celular, um número que eu não conhecia: "Olha, estou aqui, quero resolver o negócio da Petrobrás". E quem é? "É o Primo". Até que eu me encontrei com esse Primo.

Foi onde?

Na Brigadeiro Faria Lima, perto da Cidade Jardim (São Paulo). Fomos tomar um café. Ele se apresentou como assistente do Paulo Roberto e que estava lá para tentar me ajudar a receber. Ele me perguntou quanto era. Eu falei: "olha, vou acrescer juros". Dava cinco, seis milhões. O valor inicial era quase quatro. 

O que você sabe sobre a participação de Lula e Gabrielli nessa negociação (delatada pelo doleiro Youssef)?

Esse senhor (Youssef), ele "viajou". Quase tive um enfarto com aquela reportagem (do jornal "O Estado de S. Paulo" sobre as declarações de Youssef). 

Paulo Roberto e Youssef tocaram nos nomes do Lula e do Gabrielli?

Nunca. 

Quanto você recebeu?

Uns R$ 3 milhões e um pouquinho. Depositaram na minha conta e eu não sei quem depositava. Nunca soube dessa MO Consultoria, da outra lá (Sanko Sider).

Como é possível prestar serviço sem contrato à Petrobrás?

Apresentei um projeto, do que seria essa ação de relacionamento, quanto custaria para fazer. Falei assim: "como faz?" "Você faz, emite nota, eu te pago". Nunca recebi orientação de fazer um contrato. Para mim, sempre foi normal não ter esse contrato com a Petrobrás.

E assim você fazia...

E assim fazia. Por exemplo: comprei brindes. Deu mil. Então, emite a nota, mais o percentual de comissão da agência, que era 15%. Pronto. Era na conta. Nunca tive problema. 

Você entregava a nota fiscal da Muranno para a Petrobrás?

Emitia uma nota só. Por que? O João, da camiseta, me cobrava dez mil. Eu punha dez mil mais os 15%.

O pagamento era feito pela Petróleo Brasileiro S/A?

Sempre faturei Petróleo S/A. Nunca emiti uma nota com outra empresa. 

Qual foi o valor total recebido da Petrobrás?

Não sei. Fizemos dois, três anos esses eventos. Nada no Brasil, sempre nos EUA. 

A Petrobrás pode contratar sem ter contrato e licitação?

Não sei te dizer. Todo mundo falava numa tal de 8.666 (Lei de Licitações), não sei nem te dizer o que é. 

A Muranno ainda está em atividade?

Não. Depois desse desgaste, nem mexo mais com agência.

Você pagou propina?

Não. Vou ser honesto: quando começou essa coisa na Petrobrás, pensei assim: acho que vou majorar meus preços. Alguém vai me "morder". Nunca. As pessoas perguntavam: comigo, nunca aconteceu. 

Você foi chamado por um funcionário da Petrobrás que levantava dados de serviços prestados por agências na época da CPI de 2009. Quem era?

Não me lembro. Na época, tinha algum problema na área de comunicação. Problema interno. Ele estava cuidando das comprovações, não só da minha agência, de várias, tinha mais de 15 ou 20. (...) A sensação que me deu é se alguém estava fornecendo nota fria lá.

Por que você acha que pagaram a dívida? Tinham medo de você denunciar alguma coisa?

Denunciar o quê?

Não tinha de ter contrato, por exemplo?

Aí você me pegou. 

Por que eles pagaram?

Porque... sei lá!

Tudo o que sabemos sobre:
Paulo Roberto CostaPetrobrasLava Jato

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.