''''Nunca mais consegui nada na vida'''', diz Souza

Contador foi detido por ser do Grupo dos 11

O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

O ex-contador Washington Prado de Souza, do alto dos seus 80 anos, sofre até hoje com as lembranças do regime militar. Em 1964, integrou durante 20 dias em Ponta Porã (MS) o chamado Grupo dos 11, formado pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, como um embrião do futuro exército popular de libertação, a exemplo da Guarda Vermelha da extinta União Soviética. Com o grupo Brizola esperava fazer frente aos militares golpistas de 1964."Eu nunca fui comunista e não tinha tempo nem vontade para participar de política, mas atendi ao convite de alguns amigos porque considerava que o presidente João Goulart estava fazendo um bom governo e promoveria uma reforma agrária justa", explica.O grupo nem chegou a se reunir, mas quando estourou o golpe de 64 todos foram presos. Souza e outros cinco companheiros ficaram detidos durante um mês em quartéis do Exército da cidade, que fica na fronteira com o Paraguai.Depois, julgado pela Justiça Militar, ele foi absolvido por unanimidade. Os juízes consideraram que não havia condições de que aqueles pacatos comerciantes pudessem causar dificuldade ao governo instalado em 64. "Mesmo com isso, nunca mais consegui nada na vida. Meus inimigos aproveitaram para me apontar como comunista", lamenta Souza. Candidato a vereador e a prefeito da cidade por duas vezes, ele nunca foi eleito, por conta da pecha de socialista.Com a continuação, começou a perder clientes e teve que fechar o escritório de contabilidade. A mulher o abandonou e ele passou a viver de prestar serviços a colegas donos de escritórios na área. "Nunca parei de sofrer desde aquela época. Minha vida virou um inferno", afirma. Hoje, doente, luta para conseguir uma indenização na comissão. Ele imaginava obter R$ 150 mil, mas já recebeu a informação de que o valor deve ser próximo a R$ 50 mil. Mesmo assim, está demorando a chegar."Tenho esperança de conseguir receber este dinheiro ainda, que representa uma pequena indenização diante do que já vivi." A situação de Souza se tornou tão complicada que ele chegou a processar um dos filhos por não ajudá-lo financeiramente. Os outros, no entanto, garantem sua sobrevivência.

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