''''Nunca atuamos mediante combinação prévia''''

O ministro Marco Aurélio Mello afirmou ontem que no Supremo Tribunal Federal (STF), corte onde atua há 17 anos, não há julgamentos combinados. Ele se mostrou indignado com a possibilidade de que houvesse um acordo para o julgamento do caso do mensalão - a suspeita sobre o pacto surgiu a partir da troca de mensagens eletrônicas entre dois de seus colegas, os ministros Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia, que chegaram ao Supremo pelas mãos do presidente Lula, em 2006.A correspondência de Lewandowski e Cármen ocorreu durante a sessão de quarta-feira do julgamento. "Isso é delírio", reagiu o ministro, que já presidiu o Supremo.Marco Aurélio repudiou a preocupação de Lewandowski e Cármen com o fato de ele assumir a presidência da 1ª Turma do STF. O ministro rechaçou ainda a existência de "domínio de grupo" no tribunal, citado na conversa de seus pares, via intranet.Os julgamentos obedecem à prática de acordos entre os ministros?Jamais houve isso no Supremo. Eu posso assegurar. Estou há 17 anos no STF, nunca houve grupos, nunca os ministros atuaram mediante combinação prévia. Isso é delírio. Para mim é algo extravagante, é alguma coisa absurda. A tradição no Supremo é digna da confiança da sociedade.As mensagens eletrônicas podem levar à nulidade do processo?É algo muito ruim para a instituição. Mas não podemos potencializar isso a partir da presunção do que seria o excepcional, ou seja, que os votos já estariam vinculados a um certo resultado. Já houve votos proferidos nas preliminares. Até antecipei meu voto quanto ao grupo do Banco Rural para receber a denúncia, acompanhando o relator.Lewandowski e Cármen mostram preocupação diante da sua posse na presidência da 1ª Turma.Não entendi essa preocupação. Os ministros sabem como conduzo os trabalhos. Fui presidente da corte, sou presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Não vejo razão para estarem preocupados comigo. Meu sentimento é de tristeza, principalmente com a restrição que colegas possam fazer à minha pessoa, ao meu desempenho. Talvez esses colegas não conheçam meu passado profissional. Seria interessante que procurassem conhecer. Não vou conversar com eles sobre isso. A regra é expressa no tribunal. Eles devem atuar sob a minha presidência como eu atuaria sob a presidência de qualquer um deles. Não entendo qual pode ser a preocupação deles com relação a mim. Atribuo isso (a troca de mensagens em que é citado) a um ato falho.O sr. revela seu voto a algum colega antes do julgamento?Não tenho como prática antecipar meu ponto de vista a quem quer que seja diante de um caso que está sob análise do colegiado. É o meu perfil. Há 28 anos procedo assim. Cada qual tem a sua forma de atuar. Eu acredito muito no colegiado, onde todos podem expressar seu voto em sessão pública.Existe domínio de grupos no STF?O que é isso? Vivemos mesmo uma época muito estranha, de perda de parâmetros. Espero que esse episódio logo se transforme em página virada da nossa história, que não terá repercussão nesse julgamento.

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