Novos nomes de parlamentares envolvidos no esquema das ambulâncias

Os documentos e arquivos digitais apreendidos pela Polícia Federal e pelo Ministério Público durante a Operação Sanguessuga envolvem novos nomes de parlamentares no esquema de venda de ambulâncias superfaturadas. Além de agendas, projetos e farta documentação que reforçam as evidências de fraudes nas licitações, a PF apreendeu, nos computadores da Planam, todo o controle de gastos da empresa dos últimos quatro anos.Trata-se do livro-caixa do empresário Darci Vedoin e, entre despesas corriqueiras como água, luz e telefone, constam os registros de pagamentos a parlamentares e assessores de deputados. As despesas têm elevado detalhamento: especificados com data e valor, se em dinheiro ou cheque e, em vários casos, com número de conta-corrente e do cheque especificados.Novos nomes e mais envolvimentosNa listagem das despesas da Planam constam nomes que até o momento não haviam surgido, como os deputados Iris Simões (PTB-PR), Tetê Bezerra (PMDB-MT), e de deputados citados na lista encaminhada à Procuradoria Geral da República, mas ainda fora das investigações da na Câmara dos Deputados por falta de indícios mais fortes, como os mato-grossenses Pedro Henry e Lino Rossi, ambos do PP, a deputada Almerinda Carvalho (PMDB-RJ) e o deputado alagoano João Caldas (PL), quatro secretário da mesa da Câmara dos Deputados.Todos constam do livro-caixa que identifica "despesas a pagar" da Planam. A documentação também compromete ainda mais parlamentares que já estavam seriamente envolvidos nas conversas telefônicas, como Nilton Capixaba (PTB-RO), Paulo Baltazar (PSB-RJ) e Benedito Dias (PP-AP). Há ainda o registro de pagamentos feitos a vários ex-parlamentares, como Cabo Júlio (PMDB-MG) e Laire Rosado, marido da atual deputada Sandra Rosado. No caso de Cabo Julio, um dos grampos da PF registra um diálogo no qual Alessandra Vedoin, filha do empresário acusado de chefiar o esquema, Darci Vedoin, afirma que vai sustar "o cheque do deputado" depois de brigar com um prefeito a ele ligado. Os valores registrados vão de R$ 5 mil a R$ 50 mil. Há ainda pagamentos destinados a assessores de parlamentares.Outros documentosAlém do livro-caixa, a PF apreendeu também os arquivos de acompanhamento de emendas para compra de ambulâncias com as quais o grupo estava trabalhando. Trata-se igualmente de um arquivo digital no qual as emendas, identificadas pela prefeitura à qual estão dirigidas, estão agrupadas sob o nome do deputado-padrinho. Esse arquivo traz o nome de dezenas de parlamentares e ex-parlamentares, mas, ao contrário do livro-caixa, não é considerado evidência de envolvimento direto no esquema de fraudes e pagamentos de propina.Nessa extensa lista menos comprometedora estão nomes de deputados citados pela ex-assessora do Ministério da Saúde, Maria da Penha Lino, entre os envolvidos no esquema, como Enio Tatico (PTB-GO), e Benedito Dias, e nomes sem qualquer indício de participação no esquema, como o deputado Claudio Magrão (PPS-SP) e o presidente do Conselho de Ética da Câmara, deputado Ricardo Izar (PTB-SP), além de outros que também integram os registros de compromissos financeiros. Nesse caso, a PF e os procuradores tentam separar "o joio do trigo" a partir de outro tipo de indício.Dos computadores da Planam também constam arquivos com o registro da senha digital concedida pelo Ministério da Saúde às prefeituras para acompanhamento dos convênios que permitiam a liberação dos recursos. A senha permite o acompanhamento do projeto e a inclusão de informações relevantes para o processo, como por exemplo a especificação técnica das ambulâncias a serem compradas. Nas investigações, a PF descobriu casos em que deputados pegavam as senhas com os prefeitos interessados e as repassava à Planam para que a empresa inserisse no convênio as especificações que melhor lhe conviessem para vencer a licitação. A documentação já foi periciada.SigiloParte do material apreendido foi entregue nesta terça, sob sigilo, pelo delegado responsável pelo caso, Tardelli Boaventura, à comissão de sindicância da Câmara dos Deputados responsável pela apuração do envolvimento de parlamentares no esquema. "São dados extremamente importantes. Nos criaram um teor profundo de angústia e devem ser analisados com muito cuidado", declarou o deputado Robson Tuma (PFL-SP), sem citar nomes.Tuma e o corregedor da Câmara, deputado Ciro Nogueira (PP-PI), se recusaram a revelar nomes. Após o depoimento do delegado, os integrantes da comissão seguiram imediatamente para uma reunião com o presidente da casa, Aldo Rebelo (PC do B-SP). O material entregue pelo delegado foi remetido para análise técnica. Embora os integrantes da comissão não admitam, é certo que a lista de 16 envolvidos sob investigação da comissão crescerá.EsquemaO delegado prestou um depoimento de mais de quatro horas e forneceu uma explicação detalhada de como funcionava o esquema. Na saída do encontro, rebateu mais uma vez as acusações de que a PF teria misturado deputados sem participação no esquema com outros, seriamente comprometidos. "Apenas cumprimos uma ordem judicial de encaminhar todos os diálogos em que pessoas com foro privilegiado foram mencionadas, sem fazer qualquer juízo de valor", explicou, acrescentando que várias pessoas tiveram acesso aos grampos, inclusive os advogados dos envolvidos."As instâncias competentes é que devem fazer o juízo", disse ele. Nesta quarta, a comissão escutará o depoimento de oito dos 45 acusados de participação direta no esquema presos em Cuiabá, entre eles, Maria da Penha e o empresário-chefe do esquema e dono da Planam, Darci Vedoin.

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