Novos medicamentos para dependentes de drogas nos EUA

Nos próximos anos, a dependência de drogas provavelmente será tratada como a hipertensão, a diabete e outras doenças crônicas: com uma variedade de medicamentos receitados no consultório médico. Neste mês, a FDA, a agência americana que regulamenta os remédios e alimentos, anunciou a aprovação de dois medicamentos com receita para dependentes de heroína: buprenorfina (um opióide parcial que provoca mínimas alterações de ânimo) e buprenorfina-naloxona (uma combinação com um antagonista de opióides). Estudos realizados ao longo da última década indicam que esses medicamentos podem ser tão eficientes como a metadona para reduzir o uso de opióides e para evitar que os dependentes abandonem os programas de tratamento. A metadona - o tratamento preferido desde os anos 60 - provoca euforia quando tomada por via oral, e ainda mais quando injetada. Mas a buprenorfina-naloxona não causa esse efeito por via oral e, se injetada, na verdade faz o viciado se sentir mal. A buprenorfina-naloxona também tem um potencial de overdose e sintomas de abstinência muito menores que os da metadona, e tem de ser usada com menos freqüência - uma vez a cada dois ou três dias, contra o uso diário da droga mais antiga. Ainda mais importante que isso, a buprenorfina-naloxona pode ser receitada na privacidade de um consultório - resultado do Ato de Tratamento da Dependência de Drogas de 2000, escrito em antecipação à nova geração de medicamentos. A esperança é que, permitindo aos dependentes que evitem as visitas a clínicas centralizadas de metadona, seja eliminado o estigma do tratamento, e mais pacientes procurem ajuda no início da dependência. O senador Carl M. Levin, co-patrocinador da lei, descreveu-a como um "passo revolucionário dado pelo governo no tratamento da dependência de heroína como uma doença, não como um desvio moral". Ele acrescentou que a iniciativa "trará grandes benefícios sociais com a redução do crime, da população carcerária e dos gastos com saúde". Outro patrocinador da lei, o senador Orrin G. Hatch, observou que o objetivo não é descriminalizar o uso da heroína. "Certamente não apóio o uso de drogas", afirmou ele. "Mas para aqueles que fizeram más (e ilegais) escolhas, e vêem-se na agonia da dependência de drogas ilícitas, a ajuda está a caminho." Alguns especialistas dizem que a nova era do tratamento da dependência inevitavelmente vai afetar o debate sobre a descriminalização das drogas. Se o abuso de heroína é apenas mais uma condição tratável, essa droga ainda é uma perigosa ameaça à sociedade? "A combinação entre o desenvolvimento e aprovação de novos medicamentos e a nova lei permitindo o tratamento em consultórios privados representa uma mudança realmente significativa", disse Alan Leshner, presidente da Associação Americana para o Avanço da Ciência e editor da revista Science. "É uma prova concreta de que estamos enxergando a dependência como uma doença genuína." A metadona continua sendo o padrão para o tratamento da dependência de opiáceos - especialmente para usuários de heroína que têm hábitos já estabelecidos e requerem grandes doses. Mas medicamentos como a buprenorfina-naloxona permitem mais alternativas para os pacientes e podem se mostrar especialmente úteis nos estágios iniciais da dependência. CursoO Escritório dos EUA para a Política de Controle Nacional de Drogas calcula que existem 1,1 milhão de viciados em heroína e que apenas 200 mil estão inscritos em programas de metadona. A nova lei exige que os médicos assistam a um curso de oito horas sobre o uso da buprenorfina-naloxona. Cada médico, ou equipe, pode tratar até 30 pacientes.

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