Novo trabalho de Dirceu terá vista para a Praça dos Três Poderes

Com diárias a partir de R$ 300, hotel Saint Peter enfrenta problemas como ausência de garagem, lentidão no serviço, uma reforma interminável e confusão no café da manhã

Lisandra Paraguassu, O Estado de São Paulo

28 de novembro de 2013 | 23h03

BRASÍLIA - Ex-gerente do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o agora condenado por corrupção José Dirceu poderá exercer seus talentos de "capitão do time" para administrar os problemas de seu novo emprego no hotel Saint Peter, em Brasília, caso a Justiça o autorize a trabalhar fora da Papuda. Muito diferente da sala no 4ª andar do Palácio do Planalto, com vista livre para a Praça dos Três Poderes, o novo endereço do ex-ministro será um espaço no subsolo do hotel, em um corredor mal iluminado próximo à garagem.

Na mesa do futuro gerente administrativo, problemas não faltarão. Ainda assim, nada se compara a uma cela do sistema penitenciário de Brasília, de onde poderá sair todos os dias por nove horas.

Se Dirceu realmente se envolver no dia a dia do Saint Peter, terá que lidar, por exemplo, com as constantes reclamações dos hóspedes sobre a lentidão no serviço de balcão e a confusão no café da manhã, com constantes problemas de manutenção e com uma reforma que, apesar de já durar dois anos, não parece ter melhorado muito a qualidade do hotel.

Nas diárias, o Saint Peter se compara a outros hotéis de luxo de Brasília. Um quarto em um dia de semana custa em torno de R$ 300 - menos em sites de descontos, bem mais na tarifa de balcão. No entanto, não oferece alguns serviços básicos. Garagem, por exemplo.

Localizado na área central de Brasília, o Saint Peter tem como um dos seus pontos fortes a proximidade com a Esplanada e a área comercial da cidade. Justamente por isso, à sua volta não existem vagas públicas. Na chegada ao hotel, o hóspede de carro pergunta aos quatro porteiros onde, então, pode estacionar. A resposta é um dedo apontado para o outro lado da rua, em um arremedo de estacionamento, pago. Ao descer, ouve o grito, de longe: "moça, tem mala para carregar?". Uma recepção não muito promissora. A reportagem do Estado se hospedou no hotel.

Um prédio de 30 anos, construído pelo então deputado Sergio Naya, já falecido, e leiloado em 2004 para pagar as indenizações às vítimas do desabamento do edifício Palace II, construído pelo ex-deputado, o Saint Peter enfrenta uma reforma geral há dois anos. Hoje, estão fechados o quarto andar, a sauna e a academia. Mas, nos andares onde a reforma já passou, o resultado não é muito animador.

No corredor, escuro, o carpete cheio de manchas parece ter muito mais do que dois anos. O quarto usado pelo Estado ainda tinha as etiquetas do fabricante dentro do armário, mas a tranca da porta da sacada estava quebrada, quinas do piso de granito estavam lascadas e as lâmpadas eletrônicas enfiadas no lugar de spots dão um certo ar de desleixo. Mais do que isso, a cama de casal minúscula, o ar condicionado central, antigo, sem controle de temperatura, a tevê a cabo com pouco mais do que o mínimo de canais e o chuveiro, elétrico, fazem duvidar do valor cobrado na diária.

No saguão do hotel a reforma começa em dezembro, de acordo com os funcionários. Apesar de razoavelmente bem cuidado, espelhos de tomadas e do botão de elevador faltando mostram a dificuldade com a manutenção do hotel.

Ainda assim, não faltam hóspedes ao hotel. Como a maioria dos estabelecimentos em Brasília, consegue ter uma lotação acima de 80% nos dias de semana, na época em que o Congresso está em sessão. Também se dá ao luxo de manter no cardápio um misto quente por R$ 18, uma fatia de pudim pelo menos preço, um frango grelhado por R$ 39,90 e um salmão grelhado por R$ 49,90 - preços que quase tornam factível o salário de R$ 20 mil anotados na carteira de trabalho de José Dirceu.

Entre seus futuros colegas, ninguém sabe exatamente o que Dirceu vai fazer. Alguns gerentes não negam que mão-de-obra extra seria bem-vinda em um hotel de mais de 400 quartos, mas nem a direção do grupo Mundial, dono do estabelecimento, nem a gerência geral se deram ao trabalho de explicar qual será a função do novo empregado. Sua suposta sala também não está pronta.

No subsolo do hotel, onde deverá trabalhar, o ex-deputado não terá direito a maior vantagem do Saint Peter, a sua vista livre para a Esplanada dos Ministérios. Lá embaixo, onde ficam os escritórios - com exceção do comercial, que está no mezanino - há uma cozinha, salas de equipamentos, uma sala de lazer para os funcionários e a garagem, hoje ocupada por material de construção. Mas, pelo menos José Dirceu sairá às 17h - horário limite para poder voltar à Papuda, pelas normas do regime semiaberto - e sairá antes de ver uma das desvantagens do local: a zona de prostituição e venda de drogas que se forma na região ao cair da noite.

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