Novo secretário se firmou no cargo ao apoiar Petrobrás

Otacílio Cartaxo demitiu colegas ao assumir comando da Receita

David Friedlander, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

O futuro da Receita Federal foi confiado a um auditor fiscal que transita entre vários grupos internos, não hesita em mudar de lado quando julga necessário e só toma decisões importantes depois de consultar a mulher. Com mais de 30 anos de carreira, Otacílio Cartaxo já tinha passado pelos cargos mais importantes da casa. Chegou ao posto máximo, o de secretário da Receita, com a demissão de Lina Vieira, em julho. Cartaxo era amigo de Lina e seu adjunto. Ao assumir, demitiu os assessores mais próximos da ex-chefe, até então seus colegas próximos. Cabe a ele, agora, pacificar a Receita, envolvida numa crise sem precedentes.A demissão de Lina detonou uma carga de intrigas e acusações que atingiu dois ministros, Guido Mantega (Fazenda) e Dilma Rousseff (Casa Civil), e provocou uma insurreição na Receita. Cerca de 50 funcionários da elite do Fisco pediram demissão em protesto contra uma suposta manobra do governo para controlar o órgão. O grupo de Lina acusa Cartaxo de traição.Ele seria o homem certo para acalmar a Receita? Quem é e como se movimenta o novo secretário?"Cartaxo surpreendeu, agiu rápido e nomeou gente técnica para o lugar dos que saíram", diz Pedro Delarue, presidente da Unafisco, sindicato dos auditores da Receita. Paulo Gil Hock, ex-presidente da Unafisco e da ala que apoia Lina, pensa diferente. "Ele começou com o pé esquerdo. Entregou de bandeja a cabeça do subsecretário de Fiscalização." Henrique Freitas, que pediu exoneração ao saber que seria demitido, era visto por colegas como o avalista de um trabalho independente na Receita. Sua saída provocou a demissão coletiva.O secretário conhece bem os meandros do Fisco. Foi fiscal de empresas, chefe da alfândega, delegado e superintendente regional. Seu ponto forte, dizem colegas, é o conhecimento sobre legislação tributária. Ele não tem atuação político-sindical, mas possui razoável rede de contatos políticos. Para alguns, isso pode ajudá-lo em seus projetos. Usada sem cuidado, no entanto, a proximidade com políticos pode criar embaraços.Foi o que aconteceu semanas atrás, com a descoberta de que sua filha Leda trabalhava no gabinete do senador Roberto Cavalcanti (PRB-PB), investigado pelo Ministério Público por sonegação de impostos. Paraibanos, Cartaxo e Cavalcanti são amigos há muito tempo. "Minha filha é muito competente e foi contratada pelos próprios méritos", disse ele. Para evitar constrangimento, a filha do secretário deixou o emprego. Em conversa recente com o Estado, Cartaxo disse que é caseiro e muito ligado à família. Ele e a mulher, Fátima, entraram praticamente juntos na Receita, no final dos anos 70. Hoje aposentada, ela é consultora do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Fátima sempre ajudou o marido no trabalho e vice-versa. Nas últimas semanas, quando a crise na Receita pegou fogo, ela esteve junto com Cartaxo em alguns encontros. Na reunião que serviu como estopim da crise, duas semanas atrás, quando o secretário avisou aos assessores mais próximos de Lina que não teria como segurá-los no cargo, Fátima estava presente. O encontro foi na casa do casal.INVESTIGAÇÃOCartaxo foi a zebra na disputa pelo cargo de Lina. Tinha uma chance remota, que pareceu sumir no final de julho, quando o Estado noticiou que era investigado pelo Ministério Público Federal por suspeita de patrimônio incompatível com a renda. A Corregedoria da Receita tinha feito a mesma investigação em 2006, concluiu que a contabilidade pessoal de Cartaxo estava em ordem e arquivou o processo. O Ministério Público Federal, no entanto, avaliou que a auditoria foi superficial e está conferindo o processo. O secretário afirma estar tranquilo, certo de que os procuradores chegarão a uma conclusão idêntica à da corregedoria. Quando a história surgiu, a equipe de Lina Vieira ficou ao lado de Cartaxo. Mudaram de opinião depois de seu depoimento na CPI da Petrobrás, quando Cartaxo praticamente aprovou a manobra fiscal que permitiu à estatal adiar cerca R$ 1,2 bilhão em pagamento de impostos - voltando atrás na posição assumida por Lina e seus assessores. Depois do depoimento, Cartaxo foi confirmado no cargo. Procurado na quinta e na sexta-feira pelo Estado, novo secretário não respondeu à reportagem. Sabe-se, no entanto, que ele tem duas tarefas imediatas pela frente. A primeira é recuperar a arrecadação de impostos. Nesse trabalho poderá contar com os efeitos da provável recuperação do Produto Interno Bruto . A outra missão é pacificar a casa. Pelo que se viu até agora, não será fácil.

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