Marcio Fernandes/AE - 02.01.2012
Marcio Fernandes/AE - 02.01.2012

Novo presidente do TJ-SP rejeita 'patrulhamento ideológico'

Ivan Sartori diz ser hostilizado por criticar CNJ e promete investigar pagamentos da corte

Fausto Macedo, de O Estado de S. Paulo

02 de janeiro de 2012 | 23h00

O novo presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Ivan Sartori, que tomou posse ontem perante o Órgão Especial da corte, declarou que sofre "patrulhamento ideológico" porque cobra do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que em suas ações respeite as garantias constitucionais.

 

Em nota, Sartori argumentou: "Não aceito, absolutamente, o patrulhamento ideológico que se vem estabelecendo no trato do tema, haja vista textos equivocados e declarações públicas a denegrirem e hostilizarem todos aqueles que ousam divergir da tese que defendem".

 

Em entrevista após a posse, citou o Estado de S. Paulo. "O Estado soltou editorial anódino, apócrifo, me chamando de Ivo Sartori, simplesmente me reprovando e me hostilizando, quando eu simplesmente dei minha opinião", disse. "Achei que foi um patrulhamento sim, porque quem não comunga da tese que o Estado comunga automaticamente é hostilizado."

 

O editorial A crise da Justiça, publicado na edição de quinta-feira, 29 de dezembro, aborda a entrevista concedida pelo desembargador ao jornal, na qual ele compara atos do CNJ aos praticados nos tempos da ditadura.

 

Historicamente, o TJ paulista, maior corte do País com 360 desembargadores, 2 mil juízes de primeiro grau e 19,5 milhões de processos travando as duas instâncias, assumiu o papel de fortaleza contra o CNJ. Desde a criação do órgão pela Emenda 45 (Reforma do Judiciário), em 2004, o tribunal é refratário ao CNJ e fustiga suas investidas.

 

Ontem, Sartori afirmou que o TJ quer "estar afinado e andar junto" com o CNJ, mas reiterou que o conselho "deve observar o duplo grau de jurisdição, o pacto federativo e o poder constituinte primário, cláusulas pétreas que são, sob pena de retroagir-se a tempos imemoráveis da história do País".

 

"O temor é que não se respeite o devido processo legal", argumentou. "Tivemos tempos passados em que isso não houve. Esse tempo é o do regime militar, onde não se respeitava o devido processo legal."

"Há outros textos na internet também me hostilizando, há vários", afirmou o desembargador.

 

Questionado sobre quais são os outros veículos que o desagradam, ele disse que não se recorda e voltou a atacar o Estado. "São vários textos na internet, não me lembro a autoria. Acho que o Estadão está agindo com parcialidade nesse caso porque está dizendo que nós queremos a limitação do poder de investigação do CNJ e nós estamos querendo ampla investigação."

 

Sartori garantiu que sua meta é identificar e punir magistrados que "enxovalham a toga". "Queremos saber quem são esses maus juízes, queremos punir esses maus juízes e eu aqui vou instaurar investigação toda vez que eu tiver notícia", assegurou.

 

"O CNJ é uma realidade", disse a seus pares, no ato da posse. "O que se discute apenas são os métodos de funcionamento do CNJ acerca dos processos administrativos disciplinares. Essa é a divergência. O CNJ vem fazendo um bom trabalho, porém há garantias constitucionais a serem respeitadas, como já reconhecido nos votos de ministros do Supremo Tribunal Federal."

 

Ele destacou que a legislação não prevê regime de exceção em relação à prerrogativa de foro para processo disciplinar. "Queremos que os maus juízes sejam extirpados da magistratura."

 

Sartori citou dado estatístico que, em sua avaliação, mostra que o malfeito não é prática rotineira da toga. “Em seis anos, o CNJ concluiu pela culpabilidade de apenas 49 colegas dentre quase 17 mil. A maioria, 99,9% dos magistrados, é gente honesta, honrada, que trabalha."

 

"O CNJ tem condições de mapear todos esses processos. Sei de colegas nossos que vão ao CNJ denunciar. Basta que o CNJ avoque processos que não tiveram o devido tratamento, aí teremos fundamento legal para essa exceção de foro."

 

Para Sartori, "o que não pode é o CNJ querer pinçar um ou outro processo sem critério". "Tem que respeitar o duplo grau de jurisdição, existe uma Constituição, há regras para o jogo."

 

Irregular. Ele classificou de "irregularidade" o fato de 45% dos desembargadores paulistas não terem entregue ao tribunal suas declarações de bens. "Abro mão do meu sigilo fiscal. Minha vida é um livro aberto, não devo nada, não temo nada."

 

Anunciou que vai instaurar procedimento para verificar pagamentos antecipados na corte – o ministro Cezar Peluso, presidente do STF, recebeu R$ 700 mil de uma só vez a título de auxílio-moradia e outros benefícios. "Recebimento antecipado não é malversação, não é verba indevida. Vamos apurar porque (magistrados) receberam antecipado. Quando recebe dinheiro de boa fé, existe a irrepitibilidade. Porém, se não for de boa fé aí há possibilidade de devolução. O que não pode é alguém invadir o sigilo fiscal do outro sem ordem judicial."

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