Joedson Alves/EFE
Joedson Alves/EFE

Novo ministro da Saúde já propôs escolha entre tratar adolescente ou idosa com doença crônica

Escolhido por Bolsonaro, Nelson Teich afirmou, ano passado, que ‘dinheiro é limitado’ e questionou em quem investir na gestão de atendimentos

Mateus Vargas e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 18h29
Atualizado 17 de abril de 2020 | 10h03

BRASÍLIA – Escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para suceder a Luiz Henrique Mandetta (DEM) como ministro da Saúde, o oncologista Nelson Teich afirmou no ano passado que, na gestão do sistema de atendimentos, é preciso fazer escolhas. Como exemplo, Teich questionou em quem vale investir: uma idosa, com doença crônica e complicações, ou um jovem que tem “a vida inteira pela frente” (vídeo abaixo, a partir de 4m40s).

“Como você tem o dinheiro limitado. Você vai ter de fazer escolhas. Vai ter de definir onde vai investir. Eu tenho uma pessoa mais idosa, que tem doença crônica, avançada. E ela tem uma complicação. Para ela melhorar, eu vou gastar praticamente o mesmo dinheiro que vou gastar para investir num adolescente que está com problemas. Mesmo dinheiro que vou investir. É igual. Só que essa pessoa é um adolescente, que tem a vida inteira pela frente. A outra é uma pessoa idosa, que pode estar no final da vida. Qual vai ser a escolha?”, disse Teich, sem concluir.

O oncologista ainda não tomou posse no cargo, mas foi anunciado nesta quinta-feira, 16, por Bolsonaro ao comando da Saúde. Ele assumirá a pasta após semanas de disputa entre o presidente e Mandetta, em plena crise da covid-19.

Na mesma fala em que propôs escolher tratar uma idosa ou um adolescente, Teich disse que há dois pontos “importantíssimos” na gestão da saúde. “O dinheiro é limitado e você tem de trabalhar com essa realidade. A segunda coisa, as escolhas são inevitáveis. Quais vão ser as escolhas que você vai fazer? Depois que você tem esse conhecimento de quanto dinheiro você tem e qual a necessidade que você tem de sanar, aí você aloca esse dinheiro”, disse.

Nelson Luiz Sperle Teich é formado em Medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), especialista em oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer e doutor em Ciências e Economia da Saúde pela Universidade de York, no Reino Unido.

Fundou e presidiu o Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI) entre 1990 e 2018. Foi consultor da área de saúde da campanha de Bolsonaro à Presidência em 2018. Chegou a ser cotado ao Ministério da Saúde à época. Atualmente é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos.

O oncologista conta com apoio da classe médica e mantém boa relação com empresários do setor da saúde. A expectativa é de que Teich traga dados que destravem debates “politizados” sobre a covid-19.

Em outro vídeo, Teich critica embate entre Mandetta e Bolsonaro

Em outro vídeo, o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, trata de forma crítica a situação política provocada pelo embate entre seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta, e o presidente Jair Bolsonaro. “Eu acho que tem duas coisas que as muito ruins em relação a isso. Primeiro, é você não ter uma liderança, eu digo (no) País, que você perceba uma tranquilidade, você perceba um equilíbrio”, disse. “E ai não estou falando especificamente do presidente ou do Mandetta, eu estou falando da situação, porque numa situação como essa em que se trabalha com enorme incerteza, modelos matemáticos, análises, tudo é extremamente incerto.”

As declarações foram dadas num bate papo promovido por uma empresa privada do setor de saúde, que foi divulgado no canal do YouTube. Nessa conversa, Teich ponderou que havia um falso dilema entre a defesa da economia e a da saúde num tempo de “extrema crise”. “A saúde e a economia não são antagônicas. Foi criada uma situação em que investir na saúde é (como se) não estivesse investindo na economia e vice versa. São cooperativas”, afirmou. “Você vive uma época de guerra com informação demais, que nem sempre é de qualidade.”

Ao insistir no conflito entre Mandetta e Bolsonaro, o novo ministro disse que as informações são “confusas”. “Esse conflito, onde você coloca um contra o outro, quando deveriam estar abraçados, levando esse negócio juntos e passando o máximo de tranquilidade possível, é ruim não só pela mensagem que é mandada à sociedade, mas é ruim porque, provavelmente, você não tem a cooperação máxima possível”, ressaltou. “É muito ruim.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.