Carolina Antunes/PR
Carolina Antunes/PR

Novo ministro da Justiça de Bolsonaro, Anderson Torres é crítico de Moro e aliado da bancada da bala

Terceiro nome a ocupar o comando da pasta, o delegado da PF é o primeiro a ser mais ligado com a área da Segurança Pública do que com a Justiça

Breno Pires, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 11h20

BRASÍLIA - Terceiro ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Jair Bolsonaro, o delegado Anderson Torres assumiu um dos cargos mais delicados para o Palácio do Planalto por envolver o comando da Polícia Federal, responsável por investigações que miram a família e aliados do presidente.

Quando era secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Torres  já havia sido cotado para comandar tanto o Ministério da Justiça quanto a Polícia Federal em ao menos três oportunidades. Próximo do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), ele desfruta de total confiança do presidente.  Segundo o Estadão apurou, o atual diretor-geral da PF, Rolando de Souza, deverá ser mantido no cargo.

Torres sempre criticou a atuação do ex-juiz da Lava Jato Sérgio Moro, o primeiro ministro da Justiça de Bolsonaro. Reclamava que o então ministro da Justiça não se reunia com secretários de Segurança. A queixa foi levada ao próprio Bolsonaro no ano passado em um momento no qual alguns aliados do presidente o estimulavam a dividir o ministério em duas pastas, separando segurança de um lado e Justiça, do outro.

Apesar de ser delegado da Polícia Federal, tendo atuado na repressão ao tráfico internacional de drogas e no combate a organizações criminosas, Torres passou grande parte da carreira na Câmara dos Deputados. Foi diretor de Assuntos Legislativos da Associação dos Delegados da Polícia Federal, cumprindo papel de articulação entre os policiais federais e parlamentares. Além disso, foi chefe de gabinete do então deputado federal Fernando Francischini (PSL-PR) – aliado de primeira hora de Bolsonaro – e, ao assessorar o parlamentar em comissões, se aproximou da “bancada da bala”.

Foi na Câmara que Torres também se tornou amigo de Jorge Oliveira, homem da confiança de Bolsonaro. Dessa relação vieram as frequentes conversas com o presidente, quando ele ainda era deputado. Nomeado ministro por Bolsonaro, Oliveira — hoje no Tribunal de Contas da União (TCU) — sempre avalizou a entrada de Torres no governo.

Porteira fechada. A primeira vez que o nome dele foi cotado para a Polícia Federal ocorreu antes mesmo da posse de Bolsonaro. Na ocasião, porém, esbarrou na “porteira fechada” prometida pelo presidente eleito ao então juiz Moro. Para que assumisse o Ministério da Justiça, Moro teve de Bolsonaro a garantia de carta branca nas nomeações. Com essa autonomia que lhe havia sido conferida,  escolheu Maurício Valeixo, ex-superintendente da Polícia Federal no Paraná, para comandar a corporação.

Logo que estourou a primeira crise entre Bolsonaro e Moro, em setembro de 2019, envolvendo a substituição de Valeixo, o nome de Torres circulou nos bastidores como sendo o possível substituto. Naquele momento, ele já tinha o apoio de Oliveira, então ministro da Secretaria-Geral da Presidência, com quem costumava ter reuniões. Foram pelo menos cinco nos primeiros nove meses do governo Bolsonaro.

Valeixo, no entanto, foi mantido. No início do ano passado, porém, quando os embates entre Bolsonaro e Moro se aprofundaram, Torres  voltou a ser cotado. Desta vez, não apenas para diretor-geral da Polícia Federal, mas para assumir o Ministério da Justiça. Um dia antes de Moro pedir demissão, acusando Bolsonaro de interferência indevida na PF, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sugeriu o nome de Torres para a vaga. “Seria um ministro 100 vezes melhor”, disse Ibaneis ao Estadão. Bolsonaro, no entanto, chamou André Mendonça, hoje de volta à Advocacia-Geral da União (AGU), para assumir a Justiça.

O novo ministro já foi denunciado por prática de tortura, mas acabou absolvido. Segundo denúncia do Ministério Público Federal, em 2007, Torres e quatro agentes da PF teriam sequestrado e torturado dois rapazes suspeitos de cometer furto na casa de um integrante da corporação, em Brasília. Queriam que eles confessassem o crime.

A acusação também indicou que os policiais federais se utilizaram irregularmente de suas funções para descobrir os autores do furto, pois a competência para a apuração seria da Polícia Civil, e não da PF. Ao fim da ação penal, no entanto, todos os acusados foram absolvidos. A sentença apontou “inexistência do fato”. Após essa decisão, também foi arquivada, em 2018, uma ação de improbidade a que os integrantes da PF respondiam sobre o mesmo episódio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.