Novo laudo confirma contaminação em Paulínia

A Secretaria de Saúde de Paulínia apresentou novo relatório sobre a contaminação dos moradores do bairro Recanto dos Pássaros, onde funcionou uma fábrica de pesticidas da Shell Química do Brasil nas décadas de 70 e 80. O laudo, divulgado ontem à noite, em Paulínia, aponta contaminação na maioria dos 120 moradores do bairro que se submeteram ao exame de biópsia no tecido gorduroso. A retirada do tecido gorduroso, por meio de uma incisão abaixo do umbigo, foi feita em março, mas os resultados somente foram apresentados ontem. Segundo o advogado da Associação dos Moradores do Recanto dos Pássaros, Waldir Tolentino de Freitas, a demora se deve à complexidade dos exames, feitos no Instituto de Química da Universidade de São Paulo, em São Carlos. No relatório divulgado pela Secretaria Municipal de Saúde, 77% dos examinados apresentaram contaminação por BHC, 21% por DDT, 21% por dieldrin e 9% por aldrin. O número mais assustador, conforme Freitas, refere-se à contaminação por hexacloro benzeno, fungicida verificado em 94% dos 120 moradores. "É uma substância letal, conhecida como pó da china, altamente cancerígena", afirmou o advogado.O laudo é assinado pelo professor e químico Fernando Lanças, segundo Freitas. Ele não foi encontrado nesta tarde para falar sobre as análises. "É uma prova conclusiva de que os moradores estão contaminados", afirmou. Ele explicou que, a partir desse relatório, irá elaborar os pedidos de indenização contra a Shell para os 150 moradores que representa. Os valores ainda não estão definidos, acrescentou.O advogado disse que também entrará, no início da próxima semana, com uma medida cautelar incidental pedindo arresto de valores da Shell para custear o tratamento dos doentes, enquanto o mérito da ação civil pública sobre o caso não é julgado. "Nos exames de gordura já se fala em miligramas de veneno, e não mais em nanogramas, como se falava nos exames de sangue".O advogado argumentou que a contaminação por aldrin e dieldrin verificada nos pacientes revela que eles continuavam expostos à fonte contaminadora. "Esses materiais permanecem no sangue por no máximo sete anos e, desde 1985, os drins foram banidos do mercado nacional, o que quer dizer que a fonte contaminadora permanece no bairro", comentou. Ainda há 35 pessoas morando no Recanto dos Pássaros, porque não fizeram acordo com a Shell para a venda de suas propriedades. Segundo Freitas, eles devem ser removidos imediatamente. Ele relatou que a prefeitura fez exames no leite materno de uma moradora do bairro e descobriu que o filho dela, de três meses, era alimentado com leite contaminado com 300 miligramas de aldrin e dieldrin, o mesmo que um comprimido, por litro. A Shell informou, por meio da assessoria de imprensa, que não poderia se manifestar porque não recebeu os laudos sobre os exames. A empresa questionou a demora na divulgação dos resultados das biópsias.

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