Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Novo comandante da Aeronáutica prevê dificuldades ao governo Bolsonaro

Tenente-brigadeiro do ar Antonio Bermudez destacou que pode haver 'inconformismo' com novo governo, mas disse ter expectativa de novos tempos com 'outra visão de mundo' no comando da nação

Felipe Frazão e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2019 | 14h44

O novo comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Antonio Carlos Moretti Bermudez, afirmou nesta sexta-feira, 4, que o presidente da República, Jair Bolsonaro, encontrará dificuldades no início da gestão como “reações corporativas” e  “inconformismo”. Nomeado por Bolsonaro, Bermudez classificou como “verdadeiramente diferente” o governo do ex-deputado e capitão da reserva do Exército.

“O documento que define a conduta do governo federal nessa sua fase inicial deixa claro que dificuldades irão surgir, seja pelo receio às mudanças, seja pela escassez de recursos, ou mesmo provenientes da reação corporativa ou do inconformismo com um governo verdadeiramente diferente. Entretanto, o próprio documento evidencia que nada disso será suficiente para impedir o avanço do nosso País”, afirmou o brigadeiro Bermudez, ao assumir o comando na Base Aérea de Brasília.

Bermudez afirmou que a missão da Aeronáutica é “defender a pátria, garantir os poderes constituídos e, por demanda desses, assegurar a garantia da lei e da ordem”. Ele prometeu que a Força vai "interagir com os segmentos verdadeiramente comprometidos com o desenvolvimento do País, sendo um dos vetores de pronta resposta aos clamores da sociedade". 

Novos rumos

Em seu discurso, Bermudez associou o governo Bolsonaro a uma expectativa de "novos tempos, valores distintos e mentalidade diferente, uma outra visão de mundo".

Diante do governo com maior participação de militares desde a redemocratização, Bermudez falou em zelo com “a higidez e a intelectualidade” do efetivo e pediu aos comandados atenção aos deveres constitucionais. Diversos oficiais das Forças Armadas têm manifestado preocupação com o risco de politização das tropas e com a identificação da gestão Bolsonaro como um governo militar.

“Rogo para que todos persigam os itens colimados sem timidez e sem descuido, mantendo suas mentes voltadas para a missão constitucional da defesa do solo que seus pés pisam”, disse o comandante à tropa.

Bermudez afirmou aos demais comandantes, da Marinha (Ilques Barbosa Junior) e do Exército (Edson Pujol), que enfrentarão dilemas teóricos e práticos, mas que “o colegiado maior da Aeronáutica saberá alcançar o consenso entre a certeza e a verdade”. 

O novo comandante também disse que são “notórias” as prioridades do governo Bolsonaro com o desenvolvimento social, que vai “estender para todo o País os bens do progresso”. Ele citou a atuação da Aeronáutica no apoio a necessidades básicas da população e situações de calamidade. 

Objetivos

Ele prometeu focar seu comando na incorporação de novas tecnologias, na capacitação de pessoal e na defesa da Amazônia e do Altântico Sul. Segundo Bermudez, as regiões "ostentam potencialidades e atraem cobiças que conflitam com interesses maiores do povo brasileiro".

"Minha prioridade será a de aumentar a qualidade dos nossos cursos a fim de garantir a formação de profissionais que saibam aliar inteligência multifacetada, comunicação construtiva, trabalhar em equipe, e, principamente, realizar várias tarefas simultanemente", disse o novo comandante. 

Bermudez disse que pretende garantir o aporte de recursos públicos em projetos estratégicos, citando, por exemplo, os novos caças F-39 Grippen, que serão a "espinha dorsal da defesa aérea". As aeronaves são desenvolvidas em parceria com a Embraer e a Saab. Também receberão destaque os projetos do A-29 Super-Tucano e do cargueiro KC-390, em parceria com a Embraer. Também destacou a necessidade modernizaçao tecnológica do sistema de controle do espaço aéreo e de envolvimento da Aeronáutica em projetos espaciais.

Bermudez fez um aceno à tropa defendendo melhor suporte de saúde, moradia condizente, instalações de trabalho adequadas e reconhecimento da dedicação a uma carreira com "características únicas".

Ele também destacou o bom relacionamento da Força Aérea Brasileira (FAB) com a imprensa para construir a reputação do órgão, disse que pretende incentivar a "perfeita relação com a mídia", enquanto o presidente tem mantido uma postura crítica a jornalistas.

O antecessor dele, tenente-brigadeiro do ar Nivaldo Luiz Rossato, também teve uma postura diferente de Bolsonaro. Na quarta-feira, Bolsonaro deixou de nominar parte de seus antecessores durante discurso de posse do ministro da Defesa no Clube do Exército. Já o ex-comandante Rossato agradeceu aos ex-presidentes Dilma Rousseff e Michel Temer, aos quais se subordinou enquanto esteve no cargo mais alto da força. Ele também citou nominalmente os ex-ministros da Defesa de Dilma (Aldo Rebelo e Jaques Wagner) e de Temer (Raul Jungmann e Joaquim Silva e Luna).

Rossato defendeu que as forças tenham "capacidade dissuasória que desestimule aventuras" diante das imensas áreas cultivadas, florestas, águas, minerais e terras com baixa densidade populacional.

"Não podemos nos enganar. As ameaças existem, estão mimetizadas à nossa volta e até entre nós, e prontas a demonstrar sua força, aproveitando nossas vulnerabilidades. Devemos estar sempre prontos integrados com a Marinha e o Exército. A paz com nossos vizinhos não permite à nação o direito de menosprezar suas Forças Armadas", discursou Rossato em seu último ato à frente da tropa. "Confiem e apoiem a Força Aérea, confiem e apoiem as instituições militares."

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