Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Novo advogado de Flávio Bolsonaro já defendeu Cabral e militares acusados de tortura na ditadura

Rodrigo Henrique Roca Pires substituiu Fred Wassef na defesa do senador na investigação do suposto esquema de 'rachadinha'

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2020 | 17h11

Novo advogado de Flávio Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, Rodrigo Henrique Roca Pires tem mais de 20 anos de carreira e já atuou para militares acusados de tortura e assassinatos na ditadura. Até 2018, defendeu o ex-governador do Rio Sergio Cabral (MDB), preso na Operação Lava Jato

O novo advogado de Flávio Bolsonaro assume o posto no lugar de Frederick Wassef, que deixou a defesa do parlamentar no caso que apura suposto esquema de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). 

A troca ocorre após o ex-assessor de Flávio, Fabrício Queiroz, ter sido preso na quinta-feira, 18, na casa de Wassef em Atibaia, no interior paulista. Segundo a assessoria de Flávio, Roca passará a defender o filho do presidente com a advogada Luciana Pires, que já representava o parlamentar.

Niteroiense, Rodrigo Roca foi advogado de Sergio Cabral até 2018, quando o ex-governador do Rio decidiu fazer delação premiada, contrariando sua estratégia de defesa à época. Detido num desdobramento da Lava Jato no Rio, Cabral está desde 2016 no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.   

Roca, que diz ter muito conhecimento sobre direito militar, carrega também uma lista de clientes fardados. Entre eles, um de seus casos mais conhecidos é o que envolve o ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido durante a ditadura militar. Neste caso, Roca atuou como advogado para o general reformado José Antônio Nogueira Belham, os coronéis reformados Rubens Paim Sampaio e Raymundo Ronaldo Campos, e os ex-sargentos Jurandyr e Jacy Ochsendorf, todos denunciados, pelo Ministério Público Federal, por participação no homicídio e ocultação de cadáver. 

Outro caso marcante em sua carreira é o do Riocentro, no qual atuou como advogado dos acusados de planejar o frustrado atentado, em maio de 1981. Entre eles o coronel reformado Wilson Machado, sobrevivente da explosão acidental no carro que levava as bombas.

O advogado também defendeu o ex-soldado da PM do Rio Paulo Roberto Alvarenga, principal denunciado pela chacina de Vigário Geral, matança de 21 moradores ocorrida em agosto de 1993. Se no primeiro júri, em 1997, Alvarenga foi condenado a 449 anos de prisão, os recursos de seu advogado levaram o caso até o STF, onde a pena foi reduzida para 57 anos e o primeiro julgamento, anulado. No segundo, Roca não era mais advogado do PM. 

Formado pela Universidade Cândido Mendes em 1996, Roca é leitor de Aristóteles a Olavo de Carvalho, e se diz afeito a línguas clássicas. Já estudou Alemão, Grego e Latim. O sobrenome Roca, de raiz boliviana, vem de sua mãe, e Pires, de seu pai, que teve carreira como projetista da construção civil. Ambos já faleceram. 

Em entrevista a Luiz Maklouf Carvalho publicada no Estadão em 2017, o advogado confirma que votou no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 1989. “Me arrependi muito”, disse à época, omitindo suas preferências nas eleições posteriores e se definindo como “um democrata de centro, contra qualquer ditadura e contra a tortura.”

Troca

Logo após a prisão do ex-assessor Fabrício Queiroz na casa de Atibaia de Wassef, a estratégia do Planalto foi a de desvincular a imagem do presidente Jair Bolsonaro da operação. Por meio de nota, a advogada Karina Kufa divulgou, no dia da prisão, que Frederick Wassef não representava o presidente em nenhuma ação judicial. No entanto, o presidente já chegou a afirmar publicamente que Wassef era seu advogado. 

Quanto ao filho o presidente, Flávio Bolsonaro, Frederick Wassef atuava como seu advogado  na investigação do suposto esquema de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio, e declarou no domingo, 21, em entrevista à CNN Brasil, que resolveu deixar de defender o parlamentar no caso. 

A razão da desistência, afirmou Wassef, é que há uma estratégia para atingir sua pessoa e, assim, chegar ao presidente. "Sim, sou advogado do presidente Jair Bolsonaro", disse na entrevista à CNN, ressaltando que a relação entre os dois é "única e exclusivamente de natureza jurídica". 

Na noite de domingo, Flávio anunciou que Wassef estava deixando sua defesa "por decisão dele e contra a minha vontade". Em postagem no Twitter, o senador afirmou que a "lealdade e a competência do advogado Frederick Wassef são ímpares e insubstituíveis".

Frederick Wassef ainda não deu explicações públicas sobre o motivo pelo qual Fabrício Queiroz estava em sua casa em Atibaia quando foi preso pela Polícia Civil de São Paulo.

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