Nove mil inscritos no Cheque-Cidadão estão sob suspeita

Pelo menos 9 mil dos 94 mil inscritos no Cheque-Cidadão, principal programa assistencial dos ex-governadores do Rio Rosinha e Anthony Garotinho (PMDB), estão sob suspeita de irregularidade. Análise feita nos últimos 30 dias pela Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, comandada pela ex-governadora do Estado Benedita da Silva (PT), rival política do casal Garotinho, identificou cerca de 10% de cadastros manuscritos, com a identificação apenas dos nomes de supostos beneficiários. Não há o registro da apresentação de documentos como carteira de identidade, CPF ou comprovante de residência. A ex-secretária Silvia Barreto, que comandou o programa, afirmou desconhecer irregularidades. Cerca de 250 pessoas protestaram na quarta-feira, na frente do Palácio Guanabara, sede do governo do Estado, com ataques a Benedita e ao governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), contra o cancelamento do programa e a inclusão dos inscritos, após recadastramento, no programa federal Bolsa-Família. As mudanças foram anunciadas no nono dia do novo governo, ainda em janeiro, e atingiram uma das marcas dos Garotinho. Os manifestantes chegaram juntos, em ônibus fretados, e tentaram interditar a Rua Pinheiro Machado, mas foram impedidos pela Polícia Militar. Oitenta PMs, inclusive do Batalhão de Choque, foram posicionados para conter os manifestantes. Todos os entrevistados defenderam o casal. "Eu queria saber quem pagou os ônibus", limitou-se a afirmar Cabral, na quarta-feira à tarde, quando questionado sobre a eventual conotação política da manifestação. Com orçamento de R$ 100 milhões anuais, o Cheque-Cidadão é um vale-compras mensal de R$ 100, que só pode ser descontado em uma rede de supermercados credenciada, dado a famílias carentes mediante cumprimento de contrapartidas como manutenção de crianças na escolas. Uma das críticas ao programa era o envolvimento de religiosos na sua distribuição. Após receber uma comissão de 13 manifestantes, Benedita conversou com a reportagem, mas evitou ataques ao governo anterior. Afirmou que não pode identificar os cadastros suspeitos como fantasmas porque "seria precipitação". "Essas pessoas podem procurar a secretaria para completar as informações. Os cadastros estão sendo cruzados", disse. Segundo ela, igrejas deixarão de servir como intermediárias. "Nenhuma família que vive abaixo da linha da pobreza ficará de fora". O benefício de janeiro não foi pago, mas Benedita afirmou que será incluído no pagamento de fevereiro. O atraso, disse, ocorreu por causa do processo de revisão dos cadastros. O prazo previsto para inclusão no Bolsa-Família é de "no máximo" quatro meses. Para ela, a manifestação foi "democrática". "Eu trato com naturalidade, não vou ficar alimentando coisas menores". Do lado de fora, batendo panelas, beneficiários do programa gritavam: "Fora, Benedita". Muitos reclamaram da ação da polícia. "Apanhei de um PM na cara", disse Solange Alves Freitas de Souza, de 35 anos, desempregada, moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Como os outros, ela temia não receber mais os R$ 100, mas afirmou não ter preferência entre Cheque Cidadão ou Bolsa Família. "Se for o mesmo valor, tanto faz para mim. Quero uma coisa ou outra, preciso do dinheiro." Ruth de Carvalho, de 83 anos, afirmou que Cabral "prometeu que ia melhorar e tirou" o benefício. "Ele enganou os eleitores e iludiu o povo. É uma covardia. A Rosinha não, cumpriu e fez", afirmou Cristiane da Silva Martins, de 29, também desempregada, que tem seis filhos. Um dos manifestantes usava um megafone para organizar os protestos e as tentativas de invasão da pista. "Eu gostaria que voltasse a antiga administração, a maravilha que a família Garotinho fez para o povo", disse o líder comunitário de Nova Iguaçu Isael Leandro da Silva. Procurados pelo Estado, Rosinha e Garotinho não foram localizados. A ex-governadora classificara o fim do programa como uma "amarga traição". A ex-secretária de Assistência Social, Silvia Barreto, defendeu que denúncias sejam investigadas pelo atual governo e afirmou que o Cheque-Cidadão é "questão passada".

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